O Charme da cidade era o Clube Barbacenense

Ladeada pelas ruas Lima Duarte e Padre Brito e fronteira ao Parque Municipal, ergue-se, dominando a cidade, a Igreja Matriz, em cujo frontispício se vê o relógio que lhe foi doado pelo Imperador Dom Pedro Segundo, circundado pelo dístico de autoria do padre-mestre Correia de Almeida.

Encontrava-se logo no começo daquela rua a casa residencial do Conselheiro Lima Duarte, diante da qual, quando por ali passava, detinha-me por momentos na curiosa contemplação de uma onça empalhada, em exposição na saleta de entrada. (...) Na casa imediata, o lusitano Mangualde cortava-nos o cabelo e nos barbeava, ao mesmo tempo em que nos informava, como é de praxe na profissão, a respeito do que ia pela cidade ocorrendo. Num salão que se construíra nos fundos da barbearia, instalou-se o Clube dos Splenéticos, do qual, se não me engano, foi o Dr. Carlos Pereira de Sá Fortes o primeiro presidente. Diariamente ali se reunia a fina flor da sociedade local, distraindo-se, ao tomar repetidas xícaras de aromático café, na leitura dos jornais, ou em amável palestra, quando não numa partida de voltarete.


Clube Barbacenense


Passado o beco que se lhe seguia, aparecia-me a casa do prestigioso chefe político Camilo Leite, de quem foram enteados Francisco de Assis, Olímpio de Assis (...) e a Exma. Viúva do Dr. Efigênio Salles, que fora governador do Amazonas e senador pelo mesmo estado, sendo seu filho meu muito querido amigo Camilo Leite Filho.


Rua Lima Duarte. A primeira casa à direita é o Solar dos Canedos


Residia na casa vizinha o sábio naturalista Victor Renault, francês de nascimento e brasileiro de adoção. De seu casamento com distinta e esmeradamente educada senhora, filha de importante família mineira, nasceram filhos, que lhe foram dignos continuadores. Honram-lhe ainda a memória (...) seu neto Leon e seu bisneto Abgar Renault, figuras exponenciais da cultura nacional.


Jardim Central com alguns carros estacionados


Com a demolição de um velho sobrado, construiu-se belo e confortável prédio em que Henrique Diniz, residente no Rio, mas saudoso sempre de sua terra natal (...) vinha instalar-se em seu veraneio anual.

Residia na casa de que é hoje proprietário o Dr. Oswaldo Fortini o vigário da paróquia, Monsenhor João Gonçalves. (...) Nas proximidades desta situava-se a casa em que residia e onde também tinha sua bem montada alfaiataria, Raimundo de Carvalho. Casou-se uma de suas prendadas filhas com o saudoso industrial Dolabela Portela e outra, Dona Cotinha, como meu colega e amigo Dr. Omar Dutra.
Vejo-me agora em frente ao palacete do meu muito querido primo Dr. Afonso Canedo, para cuja construção demoliu-se o prédio em que morou meu avô, comendador João Fernandes de Oliveira Pena, de saudosa recordação para mim. Guardo ainda vaga lembrança de minha bisavó, já curvada pelo peso dos anos. Descendente de importante família, irmã que era do Marquês do Paraná, ela era uma senhora de rara distinção, esmeradamente educada. (...)


Agência do Banco do Brasil


Passo a percorrer agora a rua Padre Brito, a começar da praça dos Andradas, em cujo começo vejo pela imaginação, pois que por outra substituída, a casa em que residia José Inácio de Almeida. (...) Netos desse preclaro varão são os meus muito prezados amigos comandante Roberto de Barros e Honório Armond. Emérito professor, orador fluente elegante prosador, Honório Armond é, ainda, por aclamação de seus pares, o príncipe dos poetas mineiros. (...) Vem em seguida a Casa Paroquial, onde estou ainda a ver a venerável figura do saudoso Monsenhor José Augusto, vigário da paróquia. (...) A seu lado situa-se o palacete que pertenceu ao Barão de Pitangui, no qual, em determinado tempo se instalou sob a direção dos Drs. Joviano Jardim e Leopoldo Costa o Retiro Higiênico. Bem curta, porém foi sua duração, com o falecimento de um dos sócios veio a liquidar-se. Adquirido o prédio pela Baronesa de Maria Rosa, nela instalou-se o Asilo das Órfãs.


Matriz de Nossa Senhora da Piedade


Vejo, em continuação, o prédio que pertenceu, ou ainda pertence, aos herdeiros de Antônio Campos, no qual teve por vários anos sede o Clube dos Splenéticos. Também nela residiu o telegrafista Navarro. De seu casamento com Dona Mariquinhas nasceram os filhos José, Otávio e Mário Navarro. Nela também residiu o meu muito particular amigo Dr. Brasil Araújo.

Nos fundos da igreja Matriz, construiu-se, em terreno cedido pela Municipalidade, excelente edifício, atual sede do Clube Barbacenense, ao qual, ainda não há muito, afluía o escol da sociedade local, sendo hoje, devido aos extremismos partidários, freqüentado apenas pelos adeptos da facção Bias Fortes.

NOTA: Reprodução de trechos do livro Minha Terra e Sua Gente, de Alberto Diniz, publicado em 1950. Edição dos capítulos por seu sobrinho-neto Henrique Diniz. Fotos do acervo da Fundac.


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