O coração
da cidade: Rua 15 de Novembro
Saio da Rua Tiradentes, vendo-me agora no largo do Rosário,
cujo nome lhe vem da pitoresca igrejinha que ali se ergue, em
meio a florido jardim, que merecia cuidados muito especiais de
Carlos Abranches. De um e outro lado contemplo, com saudoso olhar,
os diversos prédios em que residiram meus já falecidos
amigos Antônio Pinto, Lincoln Cruz Machado, Neném
Gonçalves, Montalvão, João Gonçalves,
José Porfírio. Nele está a levantar-se o
monumento que perpetuará a memória dos pracinhas,
alguns deles filhos diletos de Barbacena, que se sacrificaram
em defesa da democracia nas ásperas serras italianas.

Início da rua 15 de novembro
Estou agora a percorrer lentamente, parando aqui e ali, a principal
artéria da cidade a rua 15 de Novembro, ora fartamente
iluminada a luz elétrica, calçada a paralelepípedos,
com cimentados passeios e bem arborizada. Nela, logo de começo,
se me apresenta a casa que o bom-gosto do coronel José
Máximo, seu proprietário, transformara em precioso
Museu de Arte, agora a demolir-se para a construção
do edifício que será sede da fundação
Porfíria-Olyntho de Magalhães, destinada pela suprema
vontade do benemérito barbacenense ao recolhimento de moças
solteiras desamparadas.
No prédio imediato, posteriormente demolido para construir-se
o menos estético chalé do comerciante Paulino Nunes
de Melo, tinha o seu estabelecimento comercial Roberto Henrique
de Barros. (...). De seu casamento com Dona Emília nasceu
o meu muito prezado amigo comandante Roberto de Barros. (...)
Residia no prédio fronteiro ao feio chalé do comerciante
Nunes de Melo meu cunhado Dr. Galdino Abranches, esposo exemplar,
amantíssimo pai de família e leal amigo. Teve ele
acentuada participação no movimento abolicionista
e da propaganda pela implantação da República
(...).

Largo do Rosário
Junto à sua ficava a casa em que, antes de sua transferência
para o Rio, morava o Dr. Jorge Vaz, meu particular amigo. (...).
Foi ele o primeiro diretor do manicômio Judiciário.
(...) Entre esta e o casarão de Francisco Gomes, propriedade
hoje de sua filha Sra. Onda Gomes, havia um beco, que, alargado
com a desapropriação de terrenos vizinhos, passou
a ser a rua Dr. Pereira Teixeira (anteriormente Dr. Joaquim Dutra),
em que se construíram bonitos e confortáveis prédios
residenciais, entre outros o de meu sobrinho e particular amigo
Dr. Francisco José Diniz de Abranches.
Era justamente em frente a esse antigo beco que morava, na rua
15 de Novembro, Silvestre Ferreira de Castro, conhecido, devido
a um pequeno defeito físico, por Silvestre Caolho, em cuja
venda se encontrava toda a sorte de bugigangas. (...) De ordinário
íamos, à noite, eu e meu pai, assistir às
partidas de bisca entre ele e o padre-mestre Correia de Almeida,
durante as quais se mostrava, quando de sorte, galhofeiro, enquanto
que o padre se irritava com as suas sucessivas derrotas (...).

Algumas partes do passado foram preservadas nas proximidades
da Igreja do Rosário
Encontro, em prosseguimento, o vasto prédio de propriedade
de Francisco Gomes, especialmente construído para nele
instalar-se um hotel. Inaugurou-o quem melhor poderia fazê-lo
Francisco Marcuci, que dispunha de longa prática nesse
ramo de negócio. E veio assim a ter Barbacena o hotel que
já lhe fazia falta e para o qual logo afluíram hóspedes
em quantidade. (...) Passando, porém, a sucessivos proprietários,
foi aos poucos decaindo, perdendo a distinta clientela de seu
auspicioso início. Chegaria a vez do Grande Hotel, a que
daria a nota de elegância a ilustre dama senhora Olívia
Cabral.
NOTA: Reprodução de trechos do
livro Minha Terra e Sua Gente, de Alberto Diniz, publicado em
1950. Edição dos capítulos por seu sobrinho-neto
Henrique Diniz. Fotos do acervo da Fundac.