Rua Sena Figueiredo

Moradores dessa rua, em casas vizinhas à de meu pai, eram o professor Paulo Granero, em cuja escola iniciaram seus estudos meus irmãos Henrique e Frederico, e o italiano José Allevato, sapateiro de profissão e boêmio de temperamento. Fazia ele de sua vida um divertido passatempo, alternando as horas de trabalho com as de estranhas expansões. Com sua bonita voz de tenor, cantava, ao bater sola, melodiosas canções napolitanas. Boa e inofensiva criatura, quando em estado normal, tornava-se, quando esquentado por alguns copázios de generoso Chianti, insolente e agressivo. Numa manhã, que se seguiu a uma noite tempestuosa, vimo-lo, ao abrir as janelas, estirado na calçada em frente à nossa casa. Fora assassinado por uma das vítimas de suas costumeiras insolências, cuja identidade, embora suspeitada, jamais se positivou, tendo o crime ficado envolto em impenetrável mistério. Decorrido algum tempo, passou sua viúva a novas núpcias com Antônio Allevato, irmão de seu primeiro marido, vindo a nascer desse casamento Henrique Allevato, de quem foram padrinhos meus irmãos Henrique e Balbina. (...) Exemplar pai de família, pôde ver seus filhos bem encarreirados, José, professor no Aprendizado Agrícola; Luiz, conceituado advogado no foro desta Capital e Murilo, promotor da comarca de Barbacena, ora exercendo comissão em importante função no Ministério do Trabalho.


Início da rua Quinze de Novembro


Transversais à rua Sena Figueiredo são as ruas Visconde de Carandaí, que corre em direção à Avenida Coronel José Máximo, e Santos Dumont, a terminar na rua 7 de Setembro, recentes ambas e ambas dotadas de aprazíveis prédios residenciais.

Finda a ladeira e ao entrar-se na rua Tiradentes, vejo com olhos de saudade, a casa em que nasci e vivi meus anos de infância e juventude. (...) Em casa próxima, igualmente de meu pai, reside hoje o Dr. Galdino Abranches Filho, conceituado e humanitário clínico.


Prédio da Câmara Municipal de Barbacena, um dos mais
bonitos projetos arquitetônicos do município


Entre a casa do saudoso e hábil contabilista Francisco Costa e a de Dona Bárbara, ficava o beco do João Bebiano, pelo qual, ao regressar à noite para casa, passava de olhos fechados e a correr, receoso do capeta, que, como se dizia, por ali às vezes aparecia. Alargado com a desapropriação de terrenos vizinhos, transformou-se em excelente rua, em que confortáveis prédios logo se construíram, sendo ela hoje a via preferida para quem se dirige à piscina com que o governo do estado brindou Barbacena, como ainda à Escola de Cadetes do Ar, instalada, com indispensáveis modificações, no edifício em que sucessivamente funcionaram os colégios Providência, Abílio, o que, em substituição ao anterior, foi criado por uma ilustre comissão de barbacenenses e posteriormente oficializado pelo governador Bias Fortes, sob a denominação de Ginásio Mineiro, o Colégio Militar e finalmente o Liceu Barbacenense (...).


EPCAr. Antes Colégio Mineiro


Adquirida a casa de Dona Bárbara pelo simpático casal Dona Ana e José Soares, passou ela por morte destes à sua sobrinha Chiquinha, esposa do comerciante Sebastião Antunes de Siqueira, sendo posteriormente vendida ao professor Antônio Gonçalves. Encontra-se logo a seguir o bonito chalé, especialmente construído para a residência de seu proprietário, Dr. João Vieira Junior, então juiz municipal de Barbacena. Foi nela que veio morar, quando se casou com Olga Tolentino, meu irmão Henrique Diniz.


Vista Aérea da Cidade em seus idos tempos


Fronteiro a esse chalé encontrava-se o velho sobrado, ainda hoje existente, do major João Bebiano Ferreira de Castro. Deste eram filhos, entre outros, os padres Silvino e Antônio. (...) Lembro-me ainda hoje com saudades da casa de sinhá Chiquinha Leonel, em cuja venda ia comprar broinhas e pés de moleque. Junto à sua casa ficava a da família Bittencourt, de cujos filhos Januário e Gabriel, já falecidos, fui grande amigo.

Detenho-me agora por alguns instantes diante do prédio em que funcionou outrora o Hotel das Quatro Nações e onde hoje se acha instalado o Comando do 9º Batalhão de Caçadores, cujo quartel fica na Avenida Bias Fortes. Nele por vários anos residiu, como seu proprietário, o cirurgião-dentista Pedro Massena. Dentre seus filhos, todos eles seus dignos continuadores, destaco, pela íntima amizade que nos traz unido, Nestor Massena.”

NOTA: Reprodução de trechos do livro Minha Terra e Sua Gente, de Alberto Diniz, publicado em 1950. Edição dos capítulos por seu sobrinho-neto Henrique Diniz. Fotos do acervo da Fundac.


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