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Barbacenense restaura e coleciona bicicletas antigas

RAQUEL SIGAUD - Editoria Variedades - 02/03/09 - 07h40
 
Raquel Sigaud
Tatá apresentou ao Barbacena On Line quatro tipos de bicicletas antigas


Na tarde de sábado (28), enquanto colocava quatro bicicletas inglesas para fora da sua oficina de moto, José Eustáquio, mais conhecido como Tatá, não ficou com medo de que alguém as furtasse. “Ninguém quer bicicleta antiga. As pessoas chamam isso de ‘camelo’”.

Diferente do senso comum e tendo amor à história da bicicleta, Tatá restaura e coleciona bicicletas antigas. Ele chega a ficar de seis meses a um ano para concluir um processo de revitalização e colocá-las em pleno funcionamento, com total respeito à originalidade.

O colecionador explica que desenvolveu esse gosto depois de conviver com um colega de trabalho que tinha algumas bicicletas antigas. “Nos momentos de folga, ele ficava polindo as peças e eu não entendia como ele gostava daquilo”, conta. Até que um dia esse mesmo amigo levou Tatá a adquirir o primeiro modelo: uma bicicleta de design alemão, mas fabricada no Brasil, da marca Bristol, que pertenceu ao mesmo dono por 68 anos. Agora ele revira a cidade toda atrás de uma raridade geralmente trazida por imigrantes.


Ele se dedica à coleção nos fins de semana e conta com a ajuda de Sérgio, que faz a pintura (Arte Sérgio) em aerografia, uma técnica diferente da que era empregada pelo fabricante, mas cujo resultado é igual: não deixa relevo entre as listras. Embora o colecionador consiga alguns modelos antigos descaracterizados, ele pesquisa, vê filmes e procura vestígios que mostrem como era a pintura original.

A história contada pelas bicicletas
Tatá apresentou ao Barbacena On Line quatro tipos de bicicletas antigas: Raleigh (1951), Armstrong (1939), Rudge (1947) e Phillips (1941). Além disso, ele mostrou peças das bicicletas que estão em processo de restauração. No total ele tem uma coleção de 10 exemplares. Ao reparar todos esses modelos é possível identificar traços culturais e enxergar gerações que fizeram a vida em cima de uma bicicleta.

O bagageiro, também chamado de garupa, era usado para transportar, por exemplo, sacos de cimento, botijão de gás e até pessoas. Ao sair para passear, o dono retirava o bagageiro, o que deixava o paralama à mostra e dava um certo charme, porque afastava a ideia de que a bicicleta era usada para trabalho e a associava ao lazer e ao esporte.

A Prefeitura de Barbacena fazia registros e cobrava impostos de quem tinha bicicletas e outros meios de transporte. Por isso, alguns modelos do colecionador estão emplacados. O registro tinha de ser renovado anualmente. Já as campainhas de dois tímpanos reavivam a memória de quem conviveu com esse som pelas ruas de Barbacena.

O farol era um acessório e permitia a locomoção à noite. Como o sistema de produção de corrente era feito através de um dínamo que fica em contato com a roda traseira, a condição para ter luz era pedalar muito. Até o sistema de luz alta e baixa já era empregado nas bicicletas antigas.

O quadro trapezoidal como é usado até hoje foi invenção da Humber, que começou a fabricar bicicletas em 1790. Tatá explica que os freios a varão (anteriores ao cabo de aço que é usado até hoje) chegam a ser tão seguros quanto os freios de motocicletas. A bomba de encher pneu, acessório fundamental para o funcionamento da bicicleta, tinha até suporte no quadro, conforme o modelo.

O selim era feito de três molas (a da frente do tipo caracol) e coberto por couro. Geralmente, era fabricado fora da Inglaterra. As bicicletas da marca Phillips, a atual fabricante de eletroeletrônicos, era comparável ao Fusca: popular e resistente.

O desleixo transformado em relíquia
Geralmente quando fica sabendo que alguém tem uma bicicleta, Tatá vai até a casa e faz proposta de compra. Há pessoas que dispõem a bicicleta na hora, outros donos mais apegados demoram e pedem para pensar. O colecionador conta que já houve situação em que encontra as bicicletas jogadas em galinheiro, com pneus detonados e guidão enferrujado.

Tatá costuma gastar mais de R$ 1 mil para restaurar a bicicleta, comprar peças, cromar. Para deixar a estrutura sempre em bom funcionamento, ele dá uma voltinha com elas de vez em quando na frente da sua oficina, que fica na Rua Governador Valadares. O colecionador pretende adquirir bicicletas femininas e fazer uma exposição com todos os seus exemplares. Ele tem trabalhado agora também com motos antigas.

A Índia foi e é atualmente o maior fabricante de bicicletas. As antigas são chamadas de camelo porque eram um meio de transporte resistente e que dispensa combustível, assim como um camelo atravessa um deserto e não precisa de água.




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