Menina antiga

VERA COIMBRA - Editoria Poemas - 14/07/12 - 07h03
 

O quarto da avó tem oratório grande

pra São Geraldo e mais tanto santo

e cheira a bálsamo de benguê

no canto o centenário baú de madeira

vela segredos na trava pesada do cadeado

cartas de amor esfumaçadas  pelo tempo

amores contrariados, vidas estilhaçadas

o irmão louco internado em Barbacena

a neta que se perdeu

a dívida do filho tresloucado

a tia grávida que  fugiu pra se casar

o bisavô que amava escravas

a irmã mulata tomada como agregada

ninguém fala, apenas os sussurros

pelos corredores da casa sugerem

as tias-avós gêmeas olhos azuis enrugadinhas

se colocando de noiva em cada maio

esperando o príncipe que nunca veio

o ranger de dentes das raivas presas

no coração de mulheres tão bem mandadas

ninguém fala apenas os sussurros

pelos corredores da casa sugerem

as noivas adolescentes com noivos tão sisudos

dez bonecas por dez filhos, troca tão sensata

prazer risos  alegria sonhos esperança perdidos

na dança da quadrilha nas bodas  dos cinquenta

o tempo descolorindo as estações dos muitos anos

e também a vida que nunca  foi

ninguém fala apenas os sussurros

pelos corredores da casa sugerem

o pigarro da  avó e sua fala seca zelosa

Menina enxerida, não mexe aí !

Menina abelhuda, não escuta atrás da porta  !

Menina atrevida, não olha pelo buraco da fechadura!

Quem cochicha rabo espicha

mas quem escuta rabo encurta!

a risada mansa do avô achando graça em tudo

contando pela undécima vez a incrível história

de João de Calais e sua fantástica viagem

no universo da cozinha  a alquimia do tacho de cobre

com o doce de leite  borbulho manso prenunciando o paraíso.



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