O quarto da avó tem oratório grande
pra São Geraldo e mais tanto santo
e cheira a bálsamo de benguê
no canto o centenário baú de madeira
vela segredos na trava pesada do cadeado
cartas de amor esfumaçadas pelo tempo
amores contrariados, vidas estilhaçadas
o irmão louco internado em Barbacena
a neta que se perdeu
a dívida do filho tresloucado
a tia grávida que fugiu pra se casar
o bisavô que amava escravas
a irmã mulata tomada como agregada
ninguém fala, apenas os sussurros
pelos corredores da casa sugerem
as tias-avós gêmeas olhos azuis enrugadinhas
se colocando de noiva em cada maio
esperando o príncipe que nunca veio
o ranger de dentes das raivas presas
no coração de mulheres tão bem mandadas
ninguém fala apenas os sussurros
pelos corredores da casa sugerem
as noivas adolescentes com noivos tão sisudos
dez bonecas por dez filhos, troca tão sensata
prazer risos alegria sonhos esperança perdidos
na dança da quadrilha nas bodas dos cinquenta
o tempo descolorindo as estações dos muitos anos
e também a vida que nunca foi
ninguém fala apenas os sussurros
pelos corredores da casa sugerem
o pigarro da avó e sua fala seca zelosa
Menina enxerida, não mexe aí !
Menina abelhuda, não escuta atrás da porta !
Menina atrevida, não olha pelo buraco da fechadura!
Quem cochicha rabo espicha
mas quem escuta rabo encurta!
a risada mansa do avô achando graça em tudo
contando pela undécima vez a incrível história
de João de Calais e sua fantástica viagem
no universo da cozinha a alquimia do tacho de cobre
com o doce de leite borbulho manso prenunciando o paraíso.