Eleição surpreendente

FRANCISCO SANTANA - Editoria Crônica - 07/07/12 - 07h55
 

As eleições para escolhermos prefeitos e vereadores se aproximam. Pensei nelas hoje ao ouvir a música “Sol de primavera” interpretada pelo Beto Guedes.

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Sol de primavera abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender...”

Uma frase em especial alertou-me: “a lição sabemos de cor só nos resta aprender”.  Por tantos anos de mesmice, passamos de eternos aprendizes para eternos ignorantes. Histórias sobre eleições todos nós sabemos contar pelo menos uma. Descreverei a minha. Encontrei-me no centro da cidade com um colega marrento, demagogo e metido a Don Juan. Ele disse que precisava trocar idéias comigo e convidou-me para entrar no seu carro. No seu interior, percebi um farto material eleitoral. Eu lhe perguntei: Uai, você também é candidato a vereador?

- Candidato não, eleito sim!

- O que lhe dá tanta certeza da vitória?

- Inúmeras! Inúmeras! Meu caro amigo, Santana!

- Por exemplo?

- Meu nome é minha melhor propaganda, meu marketing, infalível. Você conhece alguém que tem um nome pomposo, chamativo e atraente igual ao meu?

- Não! Você é o único que eu conheço!

- Veja minhas fotos nos panfletos aí no banco de trás! Não são fotos, são obras de arte. Tudo feito em Belo Horizonte com papel de primeira qualidade. A minha beleza fará a diferença nessa eleição. Você sabia que sou chamado pelas mulheres de Adônis e de Eros? Graças a Deus tenho uma ótima oratória e meu poder de persuasão se compara a Hitler e Goebbels. Sei também o que o povo gosta e quer.

- Pão e circo? Alimento e diversão?

- Mais ou menos isso.

- Percebo que no campo da propaganda e marketing você está bem estruturado. Não teme por surpresas?

- Não, porque trabalharei com uma margem de votos bem acima do mínimo exigido.

- Como assim?

- Para ser eleito eu preciso de aproximadamente 1.500 votos, com sobras! Eu já entro com 1.000 por baixo.

- Como assim?

- Minha família é grande e da minha esposa também, somos bem relacionados em Barbacena e temos muitos amigos fieis. Além do mais, Santana, eu namorei tantas mulheres que se tornaram minhas fãs e todas votarão em mim. Disso não tenho nenhuma dúvida. E mais, só com os votos com as que transei estou eleito. Se as que beijei votarem em mim, serei o vereador mais votado de Barbacena e um dos mais votados em toda Minas Gerais. Minha eleição está cercada e não tem como falhar.

- Eu lhe desejo sorte. Barbacena precisa e necessita de vereadores jovens e com idéias de progresso.

- Já percebi que você vai votar em mim!

- Quem sabe?

- Depois lhe darei alguns santinhos e panfletos para você espalhar para seus amigos e familiares. 

Chegou o dia das eleições. Ajudei a apurar os votos das cidades vizinhas, mantendo-me informado sobre a votação do meu amigo. Depois de alguns dias, saiu o resultado final. Pela inexpressiva votação ele namorou pouco, beijou pouco, transou muito pouco e seus familiares não gostam dele. Para quem já tinha 1.000 votos garantidos, teve que se contentar com apenas vinte e sete. Se ele não fosse arrogante, narcisista e vaidoso eu ficaria condoído pela situação vivida, mas ... que sirva de lição.

 



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