- em homenagem a Edward Hopper, pintor norte-americano
Quando notei que eram dez da noite, levamos vovô para casa. Ele já se esbaldara mais que o devido, entornando vinho e champanhe além do recomendável. Comemorávamos seus oitenta anos de vida e cinquenta da firma seguradora que assegurava nossa prosperidade.
A limusine estacionou antes que os seguranças estivessem postados, e isso permitiu que um mendigo claudicante estendesse seu pires diante de meu avô impaciente, que sem tostão no bolso – como de hábito – incumbiu meu irmão de sacar uma cédula para o pedinte.
Durante o percurso, vovô se declarou preocupado com o avanço das pretensões sauditas, visando a relativizar o equilíbrio na administração de insumos, mas nós o tranquilizamos até abrigá-lo junto à lareira.
Seguimos para o coquetel no Rickert Bar, onde seria decidida a partilha de ações subestimadas, mas de alto potencial. Enquanto retocava a maquiagem, adverti meu irmão de que estava disposta a tudo para obtermos bom resultado.
Ao fim de hora e meia, percebi que as negociações não eram favoráveis a nossas pretensões, e logo me submeti a dormir na cama de um panaca londrino, que resolveu satisfatoriamente apenas nossos interesses profissionais, embora filmes eróticos rolassem no telão horas a fio.
De manhã, fui ao mercado comprar uma corbélia para minha tia adoentada. Junto da florista, militantes orientalistas exortavam os passantes a abdicar de bens materiais. Ao redor dessa farândola, retratistas se ofereciam para traçar nossas feições em breve instante.
Desejava muito que o tenor caucasiano voltasse a telefonar. Repassei todos os informes ao escritório, acessei os indicadores financeiros, me deitei e fiz força para sonhar até o entardecer. O poeta ibérico também não dava notícia há vários dias.
Acabei me aboletando num bistrô quase deserto, onde mastiguei alguma coisa e me afoguei no uísque. Às duas da madrugada, procurei um táxi, mas o magricela ensebado me interceptou, reclamando esmola. Percebi, no fundo de seu olhar sereno, que ele conseguia ler minha mente, onde estava escrito que eu era do tipo que inventa falcatruas pra embromar a disponibilidade até acabar de encher a cara.