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16 de dezembro de 2016 às 23h05

Ecologia holística: por uma visão ampliada do mundo e das coisas do mundo

A opinião de Delton Mendes Francelino

Delton Mendes Francelino
Ecologia holística: por uma visão ampliada do mundo e das coisas do mundo

O século XVII marcou o mundo e definiu muito do que hoje é a humanidade. O racionalismo clássico deu origem à ciência moderna, sobretudo, por considerar o método científico como patamar fundamental para o real conhecimento. Observar, experimentar e ter conclusões pautadas na prática dissociada tornaram-se praxe nos campos científicos, abrangendo os mais diversos campos da sociedade. Descartes (1596-1650), filósofo e matemático, é considerado o propulsor desse racionalismo e o pai da ciência moderna e, junto a grandes expoentes (Francis Bacon, Blaise Pascal, Thomas Hobbes, Baruch Spinoza, John Locke e Isaac Newton), definiu os alicerces do modo como hoje as pessoas pensam o mundo, o planeta, as relações sociais e a existência.

 

Em suma, o método científico proposto no século XVII trouxe para a humanidade a possibilidade de perceber e conhecer o universo particular de seu corpo, da Terra e da astronomia. Através da dissociação do sujeito que pensa (cogito) e da dúvida como um objeto, os séculos XVIII, XIX e XX vislumbraram descobertas científicas antes jamais possíveis, fatores esses fundamentais para a consolidação de macro culturas como o capitalismo e para o crescimento da população humana no planeta. Mas, é possível dissociar o ser pensante do objeto de pesquisa? Até que ponto o pensamento, como uma prática social, pode ser considerado algo distante do objeto a ser estudado?

É exatamente nesse ponto que um problema surgiu: dissociou-se em excesso a humanidade de todo o conjunto de forças e elementos da natureza. A Revolução Científica discriminou o conhecimento em níveis epistemológicos, muitos deles sem ligação, presos em seus conceitos particulares e singulares. Se por um lado o método científico possibilitou o avanço do conhecimento humano sobre o mundo e o universo, por outro, a concepção da dúvida como uma parte alienada do sujeito nos distanciou de processos naturais e orgânicos; tornou-nos excessivamente altruístas e alienados da natureza, dos seus processos ecossistêmicos e de toda a multiplicidade da complexidade ambiental.

No século XXI, sobretudo em decorrência da globalização e dos problemas (ou não problemas) advindos desse processo, altamente baseado nas tecnologias, a relação humanidade X planeta chegou num patamar cataclísmico: reduzimos os recursos naturais da Terra de maneira absurda, degradamos áreas enormes de florestas nativas como nunca, poluímos em velocidade potencial e nos distanciamos do mundo e de nós mesmos.

 É nesse lugar que reside a importância do pensamento holístico: compreender a vida na Terra e o próprio planeta como um conjunto indissociável de relações; entender que é no nível ecossistêmico compartilhado que as maiores explicações são obtidas; é no plano do todo, e não da parte, que a verdadeira essência da natureza pode ser vislumbrada em completude, aprofundada cientificamente e construída rumo a novas práticas e tendências comportamentais humanas em relação à Terra.

A ciência cartesiana é focada na ideia de que, em qualquer sistema complexo, o comportamento do todo pode ser analisado pelas propriedades de suas partes. A ciência holística, sistêmica, por outro lado, mostra que os sistemas não podem ser compreendidos por partes dissociadas, por mera análise, ou seja, as propriedades das partes não são propriedades intrínsecas e só podem ser entendidas dentro do conceito do todo.  O pensamento sistêmico, portanto, busca explicar as coisas considerando o seu meio ambiente, justamente por isso, nas palavras de Capra (1996): “todo pensamento sistêmico é um pensamento ambientalista”.

A Ecologia Holística é uma ciência calcada no diálogo, numa conversa constante entre o homem e tudo o que lhe rodeia, intermedeia, irrompe e adentra, importa, contrai, absorve e constrói. É uma nova ética de relacionamento entre os seres e os fenômenos universais. Pensar o mundo e a humanidade holisticamente é um desafio diante da realidade alienante construída por séculos, mas é uma das mais bonitas guerras a se travar na modernidade, e talvez a mais passível de vitórias e mudança.

Delton Mendes Francelino é Diretor Internacional do Instituto Curupira (MG, SP e EUA). Pesquisador em Ciências Ambientais, Urbanidade e Sustentabilidade.