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6 de novembro de 2016 às 13h19 atualizada em9 de novembro de 2016 às 08h44

A violência contra a mulher: a flor, a dor e a esperança

45.460 casos de estupro foram registrados no Brasil em 2015

Delton Mendes Francelino
A violência contra a mulher: a flor, a dor e a esperança

Pouca gente sabe, mas a clássica história de “A bela e a fera” refletia uma realidade muito comum na sociedade europeia dos séculos passados. Era praxe as mulheres serem forçadas a se casarem com verdadeiros “monstros”, homens com os quais teriam que conviver por toda a vida, numa rotina extenuante de dominação física, simbólica e moral. Muitas eram as “belas” que, aos doze anos de idade (ou menos), eram literalmente cedidas em troca de alianças políticas, favores entre reis, ou, em camadas sociais mais pobres, mercantilizadas a preços irrisórios (dotes). Em suma: a mulher era um objeto de troca, venda e consumo. Uma vez de posse de seus maridos arranjados, tinham uma vida horrível: da escravidão sexual à falta de liberdade, a maioria jamais saia de casa. Outras eram assassinadas quando se tornavam rebeldes, já que era permitido aos homens matar as esposas em casos de desavenças.

Essa condição de existência para as mulheres, por mais absurda que seja, foi disseminada culturalmente para todos os povos do mundo, sobretudo, a partir do período das grandes navegações. Hoje, percebendo-se a realidade mundial, vê-se claramente como todas as sociedades do planeta estão repletas de conceitos machistas e de repressão feminina. Claro, não significa dizer que a cultura da opressão à mulher surgiu na Europa, mas, sem dúvidas, muitos traços culturais de subtração de direitos das mulheres são provenientes da estrutura patriarcal europeia, estrutura essa que persevera no Brasil hoje, escancaradamente.

“Um cão, uma nogueira e uma mulher: quando mais se bate, melhores eles ficam”; “Mulheres são melhores que vinho: a diferença é que quanto mais novas, mais saborosas; quanto mais velhas, mais repugnantes. Compre mulheres novas e vinhos velhos.” Esses eram ditados populares comuns na Inglaterra do século XVI. Representam, para mim, o que há de mais podre na percepção de mundo humano. Todavia, preocupa-me, sobretudo, quando percebo que é óbvio demais que, mesmo depois de mais de 400 anos, representam ainda uma realidade muito presente nos dias atuais. Não à toa, o 10º anuário Brasileiro de Políticas de Segurança Pública revelou (no último dia 03) que só no Brasil, 45. 460 mulheres foram estupradas ano passado (registrados). Segundo alguns especialistas, esse número deve ter superado 100 mil, pois muitas mulheres não registram BOs.

 Ainda assim, mesmo a ciência mostrando como o mundo ainda é machista e preconceituoso, como a sociedade patriarcal ainda impera e prepondera em nosso sistema cultural e como o homem ainda é a criatura terrestre mais temida pelas mulheres, são milhares de ignorantes que ainda teimam em afirmar que o feminismo é uma luta indevida, baseada em “mimimis”. A todos esses idiotas morais, eu deixo meu sincero repúdio. É por causa de vocês que de sangue pinta-se a vida de milhões de mulheres hoje que, desmerecidas do básico existencial, são privadas da liberdade de ir e vir; do direito de se vestirem como bem entendem; do livre interpretar de seus corpos, tão seus... e de mais ninguém.

A atualidade evidencia novas versões de “A bela e a fera”. De certa forma, nossas “belas”, hoje têm mais força de luta. Estão se unindo e reivindicando seus direitos. Por outro lado, as “feras”, homens repugnantes e asquerosos, povoam nossas ruas, as empresas, as escolas, as universidades, a polícia e os governos. Fazem leis, e as ignoram; matam, e não são presos; perseguem, mas não são perseguidos; utilizam de suas posições de poder, livremente, sem qualquer receio de punição. Enquanto isso, bilhões de mulheres, em todo o planeta, são lançadas aos piores tipos de guetos que já existiram: aqueles velados, na maioria das vezes, sem paredes sólidas, mas conceituais e simbólicas. Menorizadas, humilhadas, amedrontadas e não raras vezes feridas no corpo e na alma, não sabem como a vida poderia ser plena e livre, pois nunca beberam da experiência pura da liberdade.

Isso é o que mais me assombra: dentre todas as mulheres que moram em minha existência, e me enriquecem a vida, não tenho dúvidas de que praticamente todas nunca souberam o que é a liberdade plena, simplesmente por nunca poderem sentir-se totalmente seguras, na própria casa, ou em espaços públicos.

Que nossas “belas” contemporâneas, ao contrário da “bela” da história, não deixem de lutar. Que nós, homens, machistas pela mera existência num corpo masculino em si já repleto de poder e privilégios, abandonemos a arrogância e a prepotência, assumindo que devemos ajudar a construir uma realidade mais digna para todas as mulheres.

Em fim, dedico este artigo a Arianne Sena e Mariana Vicentini, duas flores que, nos últimos dias plantaram em mim mais percepções críticas sobre esse tema. 

http://www.spm.gov.br/central-de-conteudos/publicacoes/publicacoes/2015/livreto-maria-da-penha-2-web-1.pdf