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20 de novembro de 2016 às 15h42 atualizada em20 de novembro de 2016 às 16h26

A flor que nasce sobre as pedras

A opinião de Delton Mendes Francelino

Delton Mendes Francelino
A flor que nasce sobre as pedras

Há menos de 15 dias escrevi mais um artigo abordando a questão da violência contra a mulher e a herança cultural e histórica machista que a sociedade reconstrói e perpetua. Como esperado, recebi algumas críticas, a maior parte delas de homens revoltados com minha postura crítica no que se refere ao tema. O teor das mensagens revelou mais uma vez como é necessária a luta em prol da liberdade das mulheres, ainda presas numa espécie de gaiola pintada em ouro por uma democracia infelizmente organizada e gerida por uma maioria preconceituosa e por valores desgraçadamente construídos nos porões da escravidão e subserviência, da Grécia à colonização portuguesa.

Temos um sistema democrático que reflete diretamente as ânsias da maioria de nossa sociedade, um lócus humano extremamente preconceituoso, sanguinário e pérfido, e somos representados hoje por uma parcela machista e inconsequente dessa sociedade: senadores, deputados, prefeitos, vereadores, ministros ... banhados com doses absurdas de machismo.

Nossa democracia, ainda em construção, revela muito de nosso povo e nossa cultura. As mensagens que recebi revelam como os índices de violência contra a mulher certamente são imensamente maiores que os dados revelados pelas pesquisas. Revelam como o problema é profundo e somente um processo constante e sólido de construção e re-significação de valores será capaz de possibilitar perspectivas mais dignas de existência feminina.

Apesar de todas as críticas, reitero o dito. Homens que somos temos uma espécie de legado machista entranhado em nosso ser, que emana junto aos processos culturais e simbólicos aos quais somos expostos (e construídos) desde o primeiro respirar fora do útero. Somos beneficiados, em nossa estrutura social ainda patriarcal, por diversos discursos milenarmente constituídos que, ainda que recambiados, continuam com a mesma essência: doutrinação, dominação e subtração da mulher em todos os contextos sociais, infelizmente, inclusive em escolas e universidades.

As críticas, embora algumas assustadoras pelas ameaças, trouxeram-me melhores possibilidades de, no horizonte machista que meu corpo vive, perceber aspectos que talvez nunca perceberia sem o confronto discursivo. Embora o receio de um confronto físico seja real, sinto claramente que é importante lutar por espaços na mídia, para a construção e debate de novas práticas sociais orientadas para essa questão e para o empoderamento das mulheres, muitas das quais inibidas, coibidas e machucadas (simbólica e fisicamente).

Portanto, empoderar é palavra de ordem. Se durante milênios raras possibilidades de práticas de poder, seja o que Foucault tanto debateu (voz), seja o hegemônico e tradicional, foram oferecidas ao segmento feminino de nossa espécie, que isso seja confrontado e debatido, questionado e colocado em prova, a cada dia, a cada segundo e minuto, em todos os ambientes de convívio social, da família às praças públicas.

Assim, no vasto caminhar possível num universo antigo, sem dúvidas as flores poderão renascer e nascer, significar e re-significar, dando origem a outras fores, com outros tipos de polens, ainda bonitas e puras, mas também fortes e resistentes, capazes de confrontar todo o mal que em suas pétalas queira assolar e residir.