31 de dezembro de 2016 às 05h36

Tapera de almas sonolentas (11)

A crônica de Ricardo Tollendal

Da Redação

Premida por nova maré de marasmo, Aroeiras recorreu ao futebol, com apoio inédito da Rádio Perereca, que inovou ao entrevistar os protagonistas ao fim do primeiro tempo da partida. As declarações, porém, eram tristemente padronizadas e não iludiram os ouvintes. Em caso de empate, o atleta dizia que iriam conversar no vestiário para corrigir detalhes e chegar ao gol. Havendo derrota provisória, o perdedor alegava que pretendiam acertar a marcação para anular os pontos fracos e reverter o resultado. Já um vitorioso seria sucinto: - A equipe esteve bem e vamos manter a pegada para ampliar o marcador.

 

Por sugestão de Fortunato Laranjeira, Venâncio Saldívia se pôs a cortejar a sobrinha de Lavínia Borges, mas a princípio não houve reciprocidade. Fortunato reconheceu que o assédio fora muito cerimonioso e recomendou a Saldívia enfiar o pé na jaca. Como Anelise Borges sempre rondava o grupo de Adelita, Venâncio Saldívia investiu em alegações dramatúrgicas e pictóricas, a fim de conquistá-la. Deixou de lado versos e canções, porque teve sabedoria suficiente para entender que os Borges não se rendiam a comoções líricas e muito menos ao pieguismo.

 

Toda a contrariedade do clã borgiano – que inclusive cogitou de espancar o nefelibata e atirá-lo nas águas de uma lagoa – foi desfeita quando Curió o nomeou secretário de assuntos culturais, com atribuições ambiciosas como a de articular uma orquestra municipal e incluir a formação artística nas escolas, visando a descobrir talentos. Diante dessa reabilitação, Anelise e Saldívia contraíram matrimônio, e a festança arrebatou Aroeiras, numa data em que Arcângelo e Adelita já tinham retornado da expedição africana, mas dessa vez de mãos abanando. Para regalar os noivos, ofertaram prodigiosa máscara tribal e patrocinaram a enésima celebração das bodas, para a qual Arcângelo não admitiu outro ambiente que não a quitanda Pague Menos, onde ele se reinvestiu na função de esmagar limões para as caipivodcas. 

 

Como nem tudo são flores, o sucessor de Olegário Salatiel deu de implicar com os projetos de Curió, que julgava perdulários. Numa manobra imprevista, o alcaide de Aroeiras arrebanhou centenas de vaqueiros, a mando dos patrões, e outros tantos mercenários, todos dispostos a marchar contra o novo governo. Aroeiras ficou congestionada pelos cavalarianos e gente de infantaria. Vinte e quatro horas antes da investida, um telegrama convocou Rodrigo Curió para trocar ideias na sede do governo.

 

Vitorioso em suas postulações, Curió foi aclamado em sua terra e dispersou a milícia. Para celebrar o feito, Saldívia, que já reunira vinte instrumentistas, os levou a executar na praça o Danúbio Azul, a protofonia do Guarani e o Hino Nacional. Como as referências ao concerto foram desairosas, no domingo Rodrigo Curió destituiu a diretoria da Perereca e determinou que a emissora ficasse subordinada à secretaria de Venâncio Saldívia. O ajantarado desse dia não permitiu aos aroeirenses boa digestão. Souza Barbosa tentou reagir, reeditando o serviço de alto-falantes. Desancou a administração, houve corre-corre, alguma pancadaria, mas o radialista acabou encarcerado antes de concluir sua arenga virulenta. Assim se restaurou em Aroeiras do Monte uma paz provisória que, como todas neste mundo, teve entusiastas e contestadores. Quem a enalteceu recebeu seus prêmios, e os divergentes foram relegados à costumeira rua da amargura. Nada, porém, afetou a jogatina no antro de Constantino Bacará e muito menos a regularidade dos sinos na taverna londrina. Quando reapareceu em público, Rodrigo Curió grisalhava nas têmporas, mas isso foi considerado imposição etária, e não reflexo de suas atitudes enérgicas.