17 de dezembro de 2016 às 08h05

Metáfora da vida

A crônica de Francisco Fernandes Ladeira

Da Redação

Por Francisco Fernandes Ladeira


 

Entre os vários esportes existentes, o futebol é, sem dúvida alguma, tanto o que possui o maior número de praticantes quanto àquele que atrai as maiores plateias. Em quase todos os continentes, o secular esporte bretão é extremamente popular, admirado por pessoas de todas as etnias, crenças, classes sociais e posicionamentos ideológicos. Ao longo dos anos, muitas hipóteses foram formuladas para tentar explicar a grande popularidade do futebol entre povos culturalmente tão diferentes. Jean-Paul Sartre, em uma curta frase, parece ter descoberto a resposta mais satisfatória para essa complexa questão. Segundo o filósofo francês, “o futebol é uma metáfora da vida”. Isto é, dentro e fora das quatro linhas são simuladas as diversas situações que caracterizam a nossa existência. Durante os noventa minutos de uma partida, são acionadas diferentes sensações como alegria, tristeza, decepção, ódio ou esperança (o famoso coro “eu acredito!”, por exemplo). Assim como na vida, o futebol também é altamente imprevisível. Nem sempre vence o melhor. Do mesmo modo que o pequeno Davi superou o gigante Golias, o futebol proporciona que um clube modesto possa derrotar as equipes mais tradicionais. Por outro lado, o futebol também permite subverter simbolicamente a realidade.  O esporte mais popular do planeta não respeita os antagonismos geopolíticos. Os Estados Unidos, grande potência global, estão muito distantes de ser uma força futebolística. A épica vitória da Argentina contra a Inglaterra durante a Copa do Mundo de 1986 – com dois gols de Diego Maradona, o primeiro com a mão e o segundo driblando praticamente todo o time inglês – representou uma espécie de revanche argentina pela derrota na Guerra das Malvinas, ocorrida apenas quatro anos antes da realização da partida.   No Brasil, o futebol é considerado uma das paixões nacionais. É um dos símbolos da afirmação do negro em nossa sociedade. Gilberto Freyre dizia que os descendentes de africanos introduziram o gingado da capoeira ao esporte bretão. Para o antropólogo Roberto DaMatta, no cenário futebolístico, ao contrário de outras instâncias da sociedade tupiniquim, não há apadrinhamento, o sujeito entra em campo porque realmente sabe jogar, não por causa de seu capital social. Talvez a única meritocracia legítima.   Tal como no cotidiano, no futebol muitos indivíduos tentam burlar as regras. Cavar um pênalti ou colocar a mão na bola disfarçadamente é tão corriqueiro quanto furar uma fila ou sonegar impostos. A grande ojeriza dos torcedores em relação à arbitragem representa a tendência do ser humano em rejeitar a autoridade. Desse modo, o respeito às normas somente é garantido pela possibilidade de sanções (os cartões amarelo e vermelho no futebol e as penalidades jurídicas na sociedade). Em contrapartida, as facetas mais obscuras da humanidade também estão presentes no futebol: o fanatismo de alguns torcedores, a violência dentro e foras dos estádios, a homofobia em alguns cantos de torcidas organizadas e o racismo muitas vezes difundido entre os próprios jogadores. Subjetividades à parte, fato é que nenhum outro esporte é tão interessante quanto o futebol.



Francisco Fernandes Ladeira é mestrando em Geografia pela UFSJ.