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12 de agosto de 2017 às 08h40

Carta para meu pai

A crônica de Francisco Santana

Francisco Santana
Carta para meu pai

Pai, como o tempo passou rápido desde a sua partida. A cena se mantém viva na minha mente.  Lembro-me que fui à sua casa, me despedir já que eu e Catarina estávamos indo para Suzano visitar meu irmão Zeca. Lembra do banho que lhe dei? Fiz a sua barba, passei um creme, cortei os pelos do seu nariz e orelhas. O senhor ficou limpinho e cheiroso. Eu o deixei numa cadeira e percebi a sua revolta pela perda de uma perna em consequência dos problemas circulatórios. Na despedida, eu o abracei e beijei como nunca tivera feito e disse que o amava. O senhor balbuciou algumas palavras incompreendidas, pois o choro compulsivo não lhe deixava falar. Quando eu disse: “Fique com Deus, pai, volto na próxima semana”.  O senhor se fortaleceu e me disse: “Você não vai me ver nunca mais, esse é o nosso último encontro”. Minha mãe, Maria José, retrucou “Deixa de ser bobo, homem!”. Viajamos. Ao chegarmos em Suzano, um vizinho do meu irmão veio nos comunicar que o senhor falecera naquela noite. Isso não é coisa que se faça!    

 

O senhor sempre dizia que jamais gostaria de enterrar seus filhos e esposa, que pedia a Deus para morrer antes deles. Deus quase o atendeu totalmente. Infelizmente, o senhor presenciou o funeral do seu filho Nico. Depois do senhor, se foram minha mãe, e minhas irmãs Guiomar, Lica, Anélia e Tida. Vocês já se encontraram por aí? A dor da saudade incomoda e faz doer. Hoje lhe escrevo relembrando momentos e contando as notícias pela nossa união de almas. Tomara que estejamos em sintonia para que o senhor possa captar tudo que eu tenho a lhe contar.

 

Penso muito no senhor. Fico a imaginar que onde estiver deve estar alegrando o ambiente com seu jeito brincalhão e divertido. Com o senhor por perto não tem lugar para a tristeza. João Pedro de Santana, meu pai e grande contador de casos. Suas gargalhadas eram escandalosas e inimitáveis. Seus colegas de farda lhe faziam cócegas só para ouvi-las. Que delícia! O senhor só ficava sério quando dançava, gostava tanto que o seu apelido era pé de valsa. Fiquei sabendo que quando o senhor chegava em algum clube era um alvoroço. Todas as moças queriam uma dança. É verdade pai?

 

Eu me lembro de muitas histórias contadas pelo senhor, mas duas me chamaram a atenção pela emoção e orgulho. A primeira foi sobre aquele pedinte que ficava numa esquina sacudindo a mão solicitando uma ajuda financeira. Ele chamava a atenção por ter uma ferida enorme e sanguinolenta na perna. O povo condoído lhe dava dinheiro. O senhor, como bom policial, estranhou a coloração da ferida. Aquilo o deixou sem dormir algumas noites. Numa manhã, o senhor foi averiguar aquele incômodo ferimento e constatou que o pedinte era um farsante, pois a ferida era na verdade um pedaço de fígado de boi protegido por um pano imundo e mal cheiroso. O senhor foi elogiado pela astúcia.

 

Já a segunda história aconteceu no final dos anos 60, na Serra de Caparaó, divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. O episódio se chamou Guerrilha do Caparaó. Ex-militares cassados tentaram uma rebelião armada contra o regime militar brasileiro com o apoio financeiro de Cuba. Como o senhor falava mal de Fidel Castro. Na época, o 9º Batalhão de Polícia Militar mandaria uma tropa para lá. Enquanto muitos pediam para não ir, o senhor se ofereceu espontaneamente. Em casa, rezávamos muito pela situação que o país passava e falávamos o tempo todo com o senhor: “Mais vale um covarde vivo do que um herói morto”. O senhor contrariou o ditado e se transformou num herói vivo ganhando uma comenda pelo gesto de bravura. Como foi bonito, pai, ver sua alegria e seu entusiasmo.  

 

Nesse mesmo período, o senhor encomendou a um colega a compra de um disco de 78 rotações em Belo Horizonte. Inquietamos pelo que poderia vir. Numa noite, o senhor chegou do quartel com o disco debaixo do braço, ligou a vitrola, aumentou o volume do som, acomodou-se num sofá e uma melodia triste ecoou pela casa: “O maior golpe do mundo/Que eu tive na minha vida/Foi quando com nove anos/Perdi minha mãe querida/Morreu queimada no fogo/Morte triste, dolorida/Que fez a minha mãezinha/Dar o adeus da despedida...”. O senhor estava visivelmente emocionado, o seu rosto estava encharcado de lágrimas que saíam em abundância dos olhos vermelhos de tanto chorar. A música era “Coração de luto”, interpretada pelo Teixeirinha. Minha mãe dizia: “Esse disco vai furar de tanto tocar”. Essa foi demais, né, pai! Eu pensei que o senhor fosse secar.  

 

Por aqui, tudo dentro da normalidade. Eu me formei em Direito e Jornalismo e me aposentei da Telemig. Catarina continua trabalhando no INSS.  Alexandre, que o senhor conheceu muito pequeno, é médico e mora em Belo Horizonte. Com tantos problemas de coração na família, escolheu ser cardiologista. É casado com Simone, também cardiologista. Eles me presentearam com uma linda e inteligente neta que se chama Ana Luísa. Depois do Alexandre, tivemos a Ana Carolina. É jornalista e mora em Barbacena. Depois de muita luta teve um filho, Bernardo que hoje, com quatro meses, nos alegra e encanta. Ambos são guerreiros. O marido da Carol é músico e se chama Rodrigo. A filha mais nova se chama Marina. Ela reside em Belo Horizonte é formada em Letras e faz o último ano de Gastronomia. Apresentei ao senhor a minha família. O senhor ganhou três netos e dois bisnetos. Não precisa chorar.

 

Essa carta está ficando extensa demais. Para terminar, vou lhe fazer uma pergunta indiscreta: no local que o senhor está, lhe devolveram a perna amputada?

 

Pai, o senhor sempre será o meu exemplo de retidão e caráter. Despeço-me dizendo que sempre partilharei de suas ações quando aqui esteve entre nós e trazendo comigo a bagagem de sua sabedoria. Isso porque quero me parecer com o senhor.


Remetente: Francisco de Santana      

Destinatário: João Pedro de Santana  

Endereço: Céu.