VIII CAPÍTULO
FUGA... E LIBERDADE
Mapas na mesa, consultas... Não havia muito tempo a perder.
Elegi Dom Pedrito, uma pequena cidade no interior do Rio Grande
do Sul.
Dom Pedrito estava bem porque muito perto de Santana do Livramento,
próximo ao Uruguai, onde, eu sabia, havia uma pequena colônia
de brasileiros exilados ou refugiados.
Maleta na mão e pé na estrada. Ônibus para
São Paulo. Ônibus para Porto Alegre. Ônibus
para Dom Pedrito. Fiquei no único hotel da cidade até
encontrar uma garagem para alugar, onde montei a minha oficina
de consertos. Para economizar morava no mesmo lugar. Dormia no
chão e fazia minha comida em um pequeno fogareiro. Pouco
serviço aparecia. Eu era um estranho e a cidade era bastante
conservadora. Fiquei lá menos de um mês. Dirigi-me
então para Santana do Livramento. Cidade bem maior, mas
nada consegui lá. Vendi minha maleta, meus aparelhos elétricos,
minhas ferramentas e passei para o Uruguai.
Foi muito interessante o meu primeiro contato com o Uruguai.
Em uma avenida de Santana, pedi informação de como
ir para o Uruguai. O interlocutor riu muito e disse: você
já está no Uruguai; do meio da avenida para cá
já é território uruguaio.
Lá não foi difícil encontrar alguns gaúchos
refugiados. Até ex-secretários estaduais viviam
de trabalho pesado. Um deles deixou que eu dormisse em um cômodo
próximo à sua casa e eu o ajudava na fabricação
de tijolos e na confecção de agasalhos de lã.
Sim, eu aprendi a tecer, o que iria me ajudar no futuro.
A vida era muito difícil e eu cheguei a trabalhar como
motorista de lotação em Rivera. Era muito perigoso,
mas deu para ganhar algum dinheiro. Meu carro era um internacional
daqueles com freio mecânico, nariz comprido e bastante rodado.
Com algumas economias, resolvi ir para Montevidéu. Primeiro
uma carona na PLUNA (Primeiras Linhas Uruguaias de Navegação
Aérea).
Chegando a Montevidéu procurei um hotel na orla marítima,
uma vez que eu deveria me encontrar com o governador Brizola e
o lugar mais fácil seria seu restaurante (o Cangaceiro)
que ficava próximo a uma praia linda. À tarde me
dirigi para lá e, para conhecer melhor, resolvi ir a pé.
Foi ótimo. Fiquei conhecendo o minuano (o famoso ventinho
dos pampas): corta igual navalha e esbofeteia mais que malandro
bêbado. Houve hora em que tive que me agarrar em placas,
postes... Para não ser levado pelo danado.
É claro que não é sempre assim, mas naquela
tarde ele estava nervoso, muito bravo mesmo.
Chegando ao restaurante fiz meu pedido e quando estava no fim
da refeição, chegou o Sr. Brizola. Conversamos um
pouco, lhe dei notícias dos companheiros de Rivera e perguntei
se havia possibilidade de conseguir alguma coisa lá. Ele
me disse que não poderia ajudar muito porque já
havia muitos brasileiros com ele e que as oportunidades de emprego
na capital não eram boas. Não permitiu que eu pagasse
a refeição e se despediu enviando um abraço
para os amigos da fronteira.
Retornei a Rivera e de lá voltei para Porto Alegre. Pensei
em voltar para casa, pelo menos para ver como estavam as coisas.
Com pouco dinheiro fui para a Base Aérea de Canoas.
Lá chegando fiquei sabendo que o comandante era o Brigadeiro
Colares, que havia sido meu vizinho em Barbacena. Falando com
ele consegui uma carona no avião do CAN (Correio Aéreo
Nacional).
No aeroporto me informaram que a carona seria até Curitiba
somente. Chegando em Curitiba o piloto (gente boa) pediu para
que eu esperasse um pouco que ele ia tentar um lugar até
o Rio de Janeiro. Na hora da partida ele disse para eu subir e
arrumou um assento para mim.
Do Rio de Janeiro para Barbacena eu vim de ônibus.
Aqui chegando percebi que o mar não estava para peixe;
o ambiente ainda estava carregado. Muitos “amigos”
me evitavam e as oportunidades de trabalho para um “comunista”
eram zero. Resolvi sair do país para sempre ou até
que as coisas mudassem um pouco.