VI CAPÍTULO
... E A CONSPIRAÇÃO CONTINUOU
Nosso pequeno grupo de jovens não podia parar.
Não... A revolta no país era grande e nós
tínhamos um compromisso com a nação. Um compromisso
conosco, com a liberdade. O clima era propício.
Qualquer movimento contra os militares tinha boa acolhida no
seio da sociedade. As atrocidades cometidas em nome de Deus e
da Pátria extravasavam a compreensão do cidadão
comum. Deveria haver um basta, tinha que haver um basta e o advento
de uma nova ordem.
Toda e qualquer manifestação de liberdade, de
cultura e de independência era sufocada pela força.
Só era permitido o que os generais queriam.
Manifestações de liberdade de pensamento eram
proibidas. Até o balé Bolshoi e a canção
de Geraldo Vandré foram proibidos. O primeiro porque vinha
de um Estado Comunista e a canção porque falava
da vitória das flores sobre os canhões, um verdadeiro
hino de paz. Uma canção que ensinava o povo a fazer
a hora e não esperar acontecer.
E nós continuávamos a conspirar. Alguns já
um pouco temerosos pensavam em doutrinamento, na tentativa de
uma revolução branca, pelo voto.
Mas não havia clima para isso. Muitos líderes
civis que sobressaíam se curvavam ante o poder ou viravam
capachos dos militares. Os poucos que continuavam com a cabeça
erguida pouco ou nada podiam fazer. Eles não podiam ir
contra as regras e estas não mudavam, porque os militares
tinham a maior parte do congresso na mão - ou pela força
ou pela corrupção.
Eu e um dos companheiros (Tiê) resolvemos tomar uma atitude
bastante infantil, mas que, naquele momento, nos pareceu boa.
Tomamos “emprestado” um veículo do governo
e saímos para o mato.
Bem longe da cidade o combustível acabou e caminhamos
até uma fazenda. O proprietário da fazenda nos acolheu
e percebendo a nossa “farra” procurou avisar aos nossos
parentes. No dia seguinte fomos despertados por familiares e por
policiais que nos levaram para a Delegacia de Polícia de
Barbacena.
Lá ficamos à disposição das autoridades
por alguns dias. Acontece que os policiais da Delegacia ficaram
sabendo da tentativa de assalto à Escola Preparatória
de Cadetes e ligaram os fatos. Descobriram que fazíamos
parte daquele grupo, o que não foi difícil, uma
vez que nossos nomes eram os primeiros da lista.
Vitória... Gritaram aqueles policiais anônimos
até então. Policiais de Barbacena haviam descoberto
a mina da popularidade.
Prenderam guerrilheiros maus e seus nomes saíam na imprensa
a toda hora.
Vieram autoridades e repórteres de vários pontos
do país para conhecer e interrogar os guerrilheiros. “Comunistas
comem crianças”, diziam. O governo havia abafado
mais uma tentativa de golpe por parte dos comunistas.
Como éramos presos políticos, fomos transferidos
da Delegacia para o Nono Batalhão da Policia Militar e
ficamos incomunicáveis como era de costume na época.
Eu ficava em uma sala, no segundo pavimento. Tiê ficava
em frente, em uma sala próxima. Nós nos víamos,
mas não podíamos nos comunicar.
Eu já não entendia mais nada; todos as noites
as mesmas perguntas. Comecei a desconfiar da inteligência
daqueles senhores. O capitão Araguarino Cabreiro dos Reis
presidia o inquérito. Havia também um promotor da
Quarta Região Militar e um oficial do Estado Maior da Aeronáutica.
Eles insistiam nas mesmas perguntas, principalmente nos quatro
milhões de cruzeiros que estariam depositados na minha
conta. De onde vieram? Quem depositou? Para que serviriam? Qual
a minha ligação com o movimento do calabouço?
Armação ingênua, bastante infantil uma vez
que esse dinheiro nunca existiu.
Ameaçavam e ameaçavam... Caso eu não informasse
poderia ter o mesmo destino do Edson Luís (mártir
do Calabouço - morto pela repressão no Rio de Janeiro).
Naquelas madrugadas frias do mês de abril me obrigavam
a tomar banho frio e depois a passear pelos jardins da Escola
sem proteção alguma. Foram muitas noites desperdiçadas
com aquelas atitudes infantis e maldosas.
O Promotor ameaçava dizendo que iria levar-me para o
Rio de Janeiro e lançar-me de um helicóptero.
O que aconteceria, perguntou-me. Eu lhe respondi: abrirei o
paraquedas, embora seja uma tentativa de homicídio uma
vez que eu nunca saltei de paraquedas.
Ele retrucou: sem paraquedas.
Eu lhe disse: homicídio consumado e ele não gostou.
O Coronel Ivan (oficial do Rio de Janeiro) era o mais educado
e parece que usava um pouco mais as suas massas cinzentas.
Em alguns poucos momentos em que nos encontramos a sós,
ele me falou que o nosso pensamento estava correto, mas que havíamos
errado em não esperar o tempo certo para uma tomada de
atitude.
Dizia, também, que ele não podia falar daquela
forma em público e dava a entender que a maioria dos militares
altas patentes era limitada e muito rígida, o que não
me surpreendeu.
Certo dia, cansados de passar o mesmo filme, eles resolveram
concluir o IPM provisoriamente e deixar que saíssemos da
prisão.
Dias antes haviam libertado dois companheiros, ficando somente
o Tiê e eu.
Na véspera de sairmos, o Tiê, muito cara de pau,
pediu ao capitão Araguarino liberdade para uma comemoração,
no que foi atendido.
Na hora do lanche chegou até cerveja pra gente e os guardas
também tomaram um pouco (já éramos bastante
relacionados).
Para que tomássemos cerveja naquele dia o capitão
impôs uma condição: ninguém poderia
saber. Cumprimos com a promessa. Até hoje.
Agora, se a torno pública é porque já não
há clima para punições, nem mesmo para os
nossos algozes, aqueles que nos feriram, nos tiraram do convívio
dos amigos e dos familiares; aqueles que se expuseram como animais
irracionais e que, hoje, (os que ainda vivem) devem se envergonhar
desse retalho de suas vidas.
Realmente, muitos militares se envergonham daqueles atos e pedem
desculpas pelo comportamento animalesco de seus irmãos
de farda.
Uma coisa que eu observei muito naquela época é
que a maioria dos militares não estava sintonizada com
aquele regime. Eles queriam é continuar a vida e muitos
deixavam escapar sua simpatia pelo nosso movimento.
Felizmente estou vivo. É o que importa. Não há
ódio, não há rancores... Embora esse episódio
não se apague da mente como eu gostaria.
Pelo contrário, até os anos 1990, muitas oportunidades
de emprego eu perdi. Até para continuar os meus estudos
no Colégio Normal eu tive que recorrer à justiça.
A direção do estabelecimento não queria “comunista”
estudando com suas ovelhas.
Coisas que aconteciam e que muitos jovens de hoje sequer imaginam.