V CAPÍTULO
AÇÃO
Como havia no grupo um ex-militar do serviço obrigatório
que serviu na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, ele
fez o mapa interno do estabelecimento, inclusive do depósito
de armas.
Gozando de liberdade ele nos levou até lá para
conhecermos, de perto, os locais mais indicados para a elaboração
de um plano de invasão eficaz. O objetivo do assalto à
Escola era tão e somente a colheita de armas e munições.
O grupo possuía apenas armas leves. Levaria clorofórmio
como prevenção. Não fazia parte do plano
eliminar pessoas. Alguns da própria cidade poderiam vir
a ser aliados no futuro.
O plano era subtrair as armas e iniciar treinamento militar
em locais preestabelecidos, principalmente as duas serras já
citadas.
Participavam do grupo Arquibaldo Miranda, cujo cunhado era do
serviço secreto da polícia militar, e Jorge Marcier,
filho do famoso artista plástico Emeric Marcier.
Eles tinham trânsito livre na casa do comandante da Escola
e na véspera da invasão, abril de 1968, foram visitá-lo
não sei por qual motivo.
Na noite escolhida, lá se foi o pequeno grupo de guerrilheiros
para o assalto planejado - anestésicos, armamento e muito
espírito patriótico.
Chegando próximo à escola, pela linha da Central
do Brasil, notamos um movimento diferente na guarda. Esta estava
dobrada e todos os guardas acordados, embora fosse madrugada.
Não houve a invasão programada, mas sim, o nosso
recuo. O recuo dos corajosos guerrilheiros.
Assim, materializou-se mais um ato de resistência na história
do Brasil. Sim, na história do Brasil porque a “República
das Rosas” foi inspiração de alguns jovens
estudantes que não se conformavam com a situação
da época, ou seja, que, a seu modo e com os seus meios,
lutaram contra a tirania, contra a prepotência e contra
a arrogância de cidadãos inescrupulosos que mancharam
nosso solo com sangue de inocentes, de brasileiros que queriam
apenas viver com altivez, com altruísmo e com liberdade.
Época em que muitos “homens” públicos
mudavam de partido e de opinião em poucos segundos. Passavam
a fazer parte do regime e pulavam de traidores para algozes de
seus ex-aliados.
Dentre eles havia políticos, juristas, empresários...
E mesmo uma parte considerável da Igreja Católica
que abriu suas portas para os torturadores tratando-os com respeito
e com carinho. Talvez com medo, porém os tratava como personalidades,
como salvadores da pátria, como sentinelas do bem...
Enumerá-los aqui seria um risco e creio que desnecessário,
uma vez que a nação tenta esquecê-los.
O que não se pode esquecer é a página negra
de nossa história, são os fatos e esses são
parte da história e esta, com certeza, servirá de
exemplo para os mais jovens.
Oxalá jamais aconteça algo parecido em nosso país.