IV CAPÍTULO

MUDANÇA DE RUMO, REVOLTA, INCONFIDÊNCIA

Terminada a obra do oleoduto, voltei a estudar.

Inicialmente estive no Colégio Estadual Professor Soares Ferreira e, passados alguns dias, matriculei-me no Colégio Normal Embaixador José Bonifácio (Escola Normal), que era considerado feminino. Sua finalidade era formar professoras primárias.

Seis colegas (Augusto, Ney, Hélio, Joãozinho, Jonas, Luiz Carlos) e eu formávamos a ala masculina daquela escola até então deliberadamente feminina.

Mil e quatrocentas meninas completavam o corpo discente da Escola Normal no ano de 1966.

Não é necessário dizer que os homens tinham uma liderança natural, mesmo porque eram frutas raras dentro da escola.

Eu, que na época possuía um armarinho, vez ou outra levava alguma coisa para vender na escola. Sandálias, roupas íntimas, colares... Ajudava na féria diária.

Fiquei conhecido de quase todas as meninas da escola, uma vez que frequentava também os turnos da manhã e da tarde...

Anos inesquecíveis... Amizade, tolerância, irmandade...

Antes das aulas ou quando havia algum horário vago, era comum alguns dos colegas ensinar aos outros a matéria que ele dominava mais. Era ótimo, muitas vezes aprendíamos com mais facilidade determinado destaque de uma disciplina considerada difícil.

A nossa turma era muito unida, formávamos uma família e olha que havia gente de várias classes sociais e faixas etárias, e até colegas casadas.

Frequentemente nos reuníamos na casa de uma colega e era muito comum fazermos serestas. Visitávamos colegas e professores nas madrugadas frias de Barbacena e... éramos felizes de verdade, apesar daquele regime truculento, daquele ar de incertezas que pairava sobre nossas cabeças.

Mas... O sentimento de liberdade que nasceu comigo estava sempre presente. Em meu subconsciente ele se fortificava e expandia.

Estava na hora, o clima era propício para um levante. O sentimento de justiça falou mais alto e voltei a conspirar. Agora contra o governo de força dos militares e contra os capachos políticos cuja subserviência manchou a história de nossa pátria.

Eu participava sempre das atividades estudantis, principalmente em Barbacena, Juiz de Fora e Belo Horizonte.

Não me dei por vencido, não me curvei ante o poderio dos militares.

Comícios relâmpagos eram constantes nas grandes cidades e em Belo Horizonte a participação popular era um fato. Quando se aproximava a cavalaria eram lançadas bolinhas de gude, tampinhas de garrafa e pedrinhas roliças, que provocavam espetáculos pitorescos. Era um tal de cair cavalo... Dos edifícios vinha todo tipo de objeto. Qualquer coisa que obstruísse o caminho dos meganhas (como eram chamados os soldados da Polícia Militar) era bem-vinda. Alguns manifestantes eram presos, mas... a maioria conseguia escapar.

Eu me reunia com amigos em locais públicos e não dava pistas para os olheiros do regime, para os “defensores da Pátria”.

Com poesias de protesto e muita conversa, convenci alguns amigos a participarem de ação bélica. Procurava manter vivos o espírito de luta e os ideais patrióticos de meus amigos.

Como os companheiros abraçaram minhas idéias, iniciamos os planos para a criação da República das Rosas (nome dado pela imprensa) tendo como base para a inevitável guerrilha as serras de Prados e de Ibitipoca. Estávamos no segundo semestre de 1967.

A turma não era muito grande - Augusto, Geremias, Walter Casario (Tiê), Lavoisier e eu. Posteriormente se acercaram com os mesmos propósitos Arquibaldo, Getúlio e Jorge Marcier.

No final, mais ou menos umas 200 pessoas estavam comprometidas, direta ou indiretamente com o nosso movimento, embora poucos tenhamos tomado a iniciativa de atos concretos. Somava-se ao grupo “Buco”, um jovem corajoso de Dores de Campos.

Também muitas companheiras participavam de nossas reuniões, nos incentivavam, mas não tomavam parte de nossas ações.

Era nosso propósito convencer todos os insatisfeitos com o regime a tomarem as armas, único caminho para a libertação, uma vez que não havia clima para uma revolução branca, pelo voto.

Mesmo porque não se podia votar e, quando chamado às urnas, o cidadão era obrigado a votar nos candidatos escolhidos pelos militares, direta ou indiretamente.

Infelizmente neste particular as coisas não mudaram e a sombra da prepotência ainda cobre a nossa pátria.

O voto continua sendo obrigatório e a classe política está muito desgastada. Aliás, teimam em afirmar que vivemos em uma democracia o que não é verdade.

Democracia onde existe “hora do Brasil” diária e obrigatória, onde existe o serviço militar obrigatório, onde votar é obrigatório... Não, nada a ver com democracia.


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