III CAPÍTULO

VOLTA À ESCOLA E POLÍTICA ESTUDANTIL

Devido à pressão de um amigo (Milton da Costa Chaves), voltei a estudar na então Escola Agrotécnica “Diaulas Abreu”.

Como novato veterano, logo me candidatei a líder da classe e da escola, tendo sido eleito líder do pavilhão.

O ano de 1963 foi muito conturbado política e socialmente. Havia algo no ar que não agradava a muitas pessoas. Desgoverno, agitação popular, vida difícil, influência externa... Parecia o prenúncio de alguma coisa mais séria.

Tendo sido aprovado nesse ano passei para o prédio principal da escola. Para não fugir a regra, candidatei-me à líder geral da escola, tendo ficado em segundo lugar. José Tércio foi eleito e tomou posse em seguida.

Era o ano de 1964, inesquecível para os que o viveram no Brasil.

Logo no início do ano aconteceu um fato inesperado e que dividiu a história da Escola Agrotécnica - a guerra das botinas.

Acontece que a escola pagava (fornecia) roupa e calçados para os alunos e, nessa oportunidade, a diretoria, não se sabe porquê, informou que não mais pagaria botinas.

O movimento iniciado pela turma da sala cinco tomou corpo e recebeu a adesão de todos os alunos. Estes não assistiam às aulas, não se alimentavam e faziam todo tipo de protesto contra a diretoria e o corpo docente da escola.

Concomitantemente a esse movimento, despontou o golpe militar de 31 de março, cuja finalidade, diziam, era defender o país do comunismo.

Página negra na história do Brasil. Imperdoável os atos praticados naquela oportunidade. Em nome de Deus cometiam-se muitas atrocidades e todo aquele que não comungasse dos pensamentos dos tiranos era eliminado de uma forma ou de outra.

Oh!... Semana Santa inesquecível.

Até a Polícia Militar de Minas Gerais contribuiu com esse episódio. Submeteu-se à autoridade dos tiranos e praticou atos desumanos e cruéis. E tudo era feito em nome de Deus e contra o comunismo.

Policiais do Nono Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais, a pedido do então Diretor (Dr. Enéas Fernando Porto), invadiram as dependências da escola, prenderam e desapareceram com o líder geral (José Tércio), provocando um movimento estudantil muito mais amplo do que o que já viviam os alunos.

Era um fim de tarde, início de uma noite de terror. Vários alunos queriam enfrentar os militares, o que seria uma catástrofe. Começou então a caça aos comunistas dentro da escola.

Com a prisão e afastamento de José Tércio, eu assumi seu posto e comecei a trabalhar para resolver o problema, ou seja, a retirada daqueles militares que nunca deveriam ter ido lá.

Com a retirada dos policiais, as coisas pareciam se acalmar. Pareciam.

Na primeira conversa com o Diretor, pedi o pagamento dos calçados, bem como a normalização da vida escolar, no que não fui atendido.

Imediatamente procurei o pároco do Santuário de São José Operário, Padre Hilário da Motta Barros, professor da escola e particular amigo, colocando-o a par de tudo.

Padre Hilário tinha muita força na coletividade e, quando da celebração da missa de páscoa da escola, fez uma homilia voltada para aqueles problemas.

Ele era bastante respeitado e seus programas de rádio tinham muita audiência. Exigiu uma solução rápida para a vida escolar e até para tranqüilizar a comunidade.

Por outro lado, o Diretor estava sendo acusado de fazer parte do “grupo dos onze” da Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA), órgão que era tido como comandado pelos comunistas.

Na cidade houve um rebuliço muito grande.

Algumas pessoas foram presas e acusadas de comunistas: Funcionários de autarquias, sindicalistas, profissionais liberais. Até um Juiz de Direito foi afastado do cargo acusado de envolvimento com os esquerdistas.

A maior parte dos políticos regionais, serva do vento, via comunistas até na sopa que tomava. Muitos políticos que apoiavam os militares tinham o apoio da Igreja; pelo menos de parte da Igreja Católica. Era difícil aceitar essa postura, embora a história nos informa que a Igreja cometeu vários deslizes em sua caminhada.

Felizmente os movimentos de resistência ao regime de força se multiplicavam no país.

Algumas categorias eram muito cuidadas pelos órgãos de inteligência e repressão do governo. Estudantes, sindicalistas, artistas, funcionários de autarquias, intelectuais e uma boa parte da Igreja Católica liderada por D. Helder Câmara, denominado pelos direitistas “Cardeal Vermelho”.

Havia nessa época uma forte tendência para invasão de terras e as da minha família estavam sendo ameaçadas por alguns jagunços insuflados por vizinhos e adversários políticos do meu pai.

Para justificar o ato eles entraram na Justiça do Trabalho pleiteando direitos trabalhistas indevidos (não trabalhavam na fazenda) e pediram indenização superior ao valor das referidas terras.

Tratava-se do pai e de dois filhos que trabalhavam na cidade como pedreiro e serventes de pedreiro. Como eles moravam num bico dessas terras, eu aproveitei uma viagem de meus pais, fui lá e, bem armado, os coloquei para correr, tendo demolido a casa onde moravam.

Por esse ato fui preso e tachado de comunista.

O Secretário de Segurança Pública de Estado nessa época era adversário político de parte de minha família, o que dificultou bastante a solução do problema.

Passada a crise forte dessa turbulência política e social, abandonei os estudos e fui trabalhar na construção do oleoduto Rio / Betim, em uma companhia internacional (Techint).

Iniciei como apontador e terminei como topógrafo prático, conferindo as valas e a curvatura dos tubos.

Era um trabalho bastante duro. Saíamos do acampamento antes das 6h e não tínhamos hora para voltar. Muitas vezes ficamos sem alimentação, pois o caminhão do rancho não chegava; ora se perdia, ora não vencia os obstáculos naturais.

Nossa equipe era de cinco pessoas. O engenheiro, eu, o chofer e dois serventes.


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