II CAPÍTULO
JUVENTUDE
Novos colegas... Novos amigos...Vida bem diferente de tudo que
eu conhecia.
Mais competição, horários rígidos
e muita disciplina. O despertar era mais cedo; em seguida educação
física, logo após banho frio (naquela época
não havia chuveiro quente na escola)... E o inverno de
Barbacena era bastante rigoroso, frio mesmo.
No segundo ano escolar eu já pertencia ao quadro de dirigentes
do Grêmio Recreativo do pavilhão. Este era a parte
nova da escola que foi construída para abrigar o curso
de iniciação agrícola, visando à ampliação
do corpo discente, dentro de um projeto mais ambicioso que culminaria
com a implantação de cursos superiores (agronomia,
veterinária, economia doméstica, etc.).
Aprovado no segundo ano do curso de iniciação
agrícola formei-me operário agrícola. Em
seguida fui matriculado no curso de mestria agrícola. Nesse
período lia muito e fazia poesias. Também era o
bibliotecário do Grêmio.
Para ajudar na economia do lar, vendia pudins e bolinhos para
os colegas e funcionários. Paralelamente, eu participava
de uma cooperativa de alunos. Plantávamos e cultivávamos
verduras e legumes com fins lucrativos. Esses produtos eram vendidos
para os funcionários, professores e também na feira
dominical que funcionava no Jardim do Globo.
No primeiro ano do curso de mestria não fui bem nos estudos,
tendo perdido o ano escolar.
Para não ser jubilado (perder o direito de estudar na
escola) eu não poderia repetir mais (tomar outra bomba).
No final de 1957, dia da Proclamação da República
(15 de novembro) nasceu meu último irmão, José
Maria, que veio a falecer com 34 anos, ainda solteiro.
Durante as férias eu trabalhava nas terras da família.
Tirava leite, capinava, roçava, fazia cerca e produzia
manteiga que era vendida em Barbacena em hotéis, restaurantes,
bares e padarias.
Devido ao fato de estar fazendo curso agrícola, eu poderia
ter sido dispensado do serviço militar obrigatório.
Acontece que me interessei por prestar esse serviço.
Apresentando-me como voluntário, fui aceito, tendo ido
para a caserna em janeiro de 1961, iniciando, assim, mais um capítulo
de minha vida.
A adaptação não foi difícil uma
vez que eu chegava de um internato e, portanto, já conhecia
regras rígidas.
Servindo no Décimo Regimento de Infantaria de Juiz de
Fora, destaquei-me como guia de educação física,
disciplina ministrada pelo então Tenente Abês, membro
de uma tradicional família de Barbacena.
Muito comunicativo, fiquei bastante conhecido de todo o regimento.
Fiz curso de cabo de peça (morteiro) e trabalhei na biblioteca
dos oficiais, o que me dava direito a rancho especial - comia
no cassino dos oficiais.
Havia permissão para substituir colegas nas escalas de
fins de semana. Eu, como não vinha para casa sempre, ganhava
uns trocados tirando serviço para outros praças.
Como o quartel ficava praticamente vazio, o serviço era
mais simples e menos policiado pelos oficiais.
Como eu gostava de praticar esportes, sempre que podia estava
nas quadras ou no campo de futebol batendo uma bolinha. Era gostoso
e saudável.
A turma que serviu naquele ano foi obrigada a permanecer alguns
dias a mais na caserna.
O serviço militar obrigatório havia sido reduzido
de dez para sete meses naquele ano, mas, devido à renúncia
do Presidente da República (Jânio Quadros), alguns
contingentes tiveram que permanecer um pouco mais nos quartéis.
Esse episódio da renúncia de Jânio Quadros
foi marcante para a vida da nação brasileira. Principalmente
para os jovens que prestavam o serviço militar obrigatório.
Alguns, como era o caso da minha turma, já haviam cumprido
com o seu dever e, consequentemente, já conheciam as armas
e as munições, bem como as táticas de combate.
Outros, recém chegados à caserna, despreparados
e ingênuos, foram vítimas da irresponsabilidade de
seus superiores que os enviaram a campo sem preparo algum.
Depois da baixa fui saber que havia dois primos meus no regimento
de São João Del Rei e que eles estavam acampados
com suas companhias sob a nossa mira. Eles tinham apenas poucos
dias de caserna.
Não é necessário dizer que seria um massacre
se houvesse confronto, uma vez que eles estavam famintos, não
conheciam bem suas armas e, pior ainda, muitos usavam munição
de festim, fato denunciado posteriormente.
Terminado o serviço militar, retornei à Barbacena
e, com a compra, pela família, de uma casa na cidade, passei
a exercer a profissão de comerciante, decidido a não
mais estudar.