XV CAPÍTULO

INÍCIO OU CONTINUAÇÃO... DÁ NO MESMO

Formado e habilitado ao exercício da profissão, no início de 1978 fui convidado para dar assistência a dois sindicatos profissionais.

A convite do saudoso Sr. Ernani Rodrigues Costa, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Barbacena, passei a dar assistência jurídica a esse Sindicato e, poucos dias depois, fui registrado pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Barbacena, contratado por seu presidente, o também saudoso Sr. Djalma da Silva Leite.

Os dois Sindicatos funcionavam na sede dos tecelões, o que facilitava o meu atendimento. O número de consultas era grande e muitas delas originavam ações.

A contra prestação pecuniária era pequena, mas a cada dia, o sindicalismo me cativava.

Em outubro do mesmo ano fui convidado pelo Sr. Messias de Paula Castro, Presidente do Sindicato dos Comerciários de Barbacena, para assessorar o Sindicato na área trabalhista. Aceitando o convite, fui registrado imediatamente. Sua sede não ficava distante do local em que eu já trabalhava. Naquela época eu passava todo o dia entre os sindicatos, o escritório do amigo Genésio, o Fórum e a Junta de Conciliação e Julgamento.

Em dezembro de 1978 me casei com Célia, que havia se formado comigo e, como professora primária, prestava serviço na secretaria da Escola Estadual Bias Fortes.

Em 1979 Genésio e eu montamos um escritório independente e que funcionou como escritório de advocacia e imobiliária ao mesmo tempo. Fazíamos alguns negócios de imóveis e chegamos a administrar outros.

De falta de serviço eu não podia me queixar. Três sindicatos, escritório de advocacia, imobiliária, advocacia particular... Dava para divertir bastante. Não foram poucas as vezes que trabalhamos até uma, duas, três horas da madrugada.

Com o afastamento do Dr. Pedro Paulo de Souza Ameno, veio para Barbacena o Dr. Márcio Ribeiro do Vale.

De personalidade marcante e profundo conhecimento jurídico, o Dr. Márcio ficou na presidência da Junta de Conciliação e Julgamento de Barbacena durante 12 anos.

Com o passar dos tempos fomos nos conhecendo e hoje me orgulho de poder afirmar que somos amigos.

Bastante trabalho... Pouco dinheiro...Mas havia momentos de descontração; alguns inesquecíveis.

Houve um caso em que meu cliente, um jovem metalúrgico, provocou gargalhada na sala de audiências.

Acontece que o preposto da empresa, no contato preliminar, se prontificou a pagar todo o pedido, uma vez que o considerava justo.

Na hora da audiência, acostumado a discutir valores, ele iniciou oferecendo apenas a metade do valor combinado. Quando o Dr. Márcio perguntou ao reclamante se ele aceitava aquela quantia para terminar a ação, grande foi a nossa surpresa (do preposto, dos vogais e minha) ao ver que ele aceitou.

Num gesto espontâneo e engraçado, ele atirou o braço próximo ao meu rosto e fazendo o sinal de positivo gritou: “Joia, Doutor”.

Passado o momento hilariante, explicamos ao Dr. Márcio que o acordo combinado era o dobro e o jovem alegre não teve prejuízo.

Doutra feita, o Dr. Márcio que era bastante fechado nas audiências, ao ler uma de minhas defesas, se retirou para o seu gabinete para rir. É que, numa defesa de ação rural e não tendo documento algum, preferi dizer que o reclamante estava dando tiro de pólvora seca para ver se matava de susto.

Houve também uma passagem inesquecível. Um senhor negro, mais maduro e de aparência bem humilde, citado para se defender de uma ação, compareceu à audiência desacompanhado. Não sabendo se defender perdeu a ação.

O Dr. Márcio, pacientemente começou a lhe explicar: “O senhor perdeu a ação e vai ter que pagar ao Sr. Fulano... “Pagá, Dôtô? Eu só tenho a muié, oito fios e esse dente de ôro” e apontou o dedo indicador para sua boca. Esse dente era o único que ele possuía. Ele falou com tanta simplicidade e graça que provocou risadas em todos os presentes. É como dizemos na Justiça do Trabalho: Ganhou, mas não levou.

Com a derrota do Sr. Ernani nas eleições sindicais, deixei o Sindicato dos Tecelões.

Como a nova Diretoria desejava promover algumas modificações físicas e estruturais no Sindicato, o Sr. Djalma, que era bastante desconfiado, pensou logo em desocupar o espaço.

Tendo encontrado uma sala ao lado da sala do Sindicato dos Comerciários, nos mudamos para lá, o que foi bom para mim, praticamente só um local de trabalho.

Era o ano de 1979, e lá ficaram os dois sindicatos até 1984, ano em que o Sindicato dos Comerciários foi para sua sede própria na Av. Bias Fortes.

Ano seguinte o Sr. Djalma conseguiu alugar uma casa ao lado da sede do Sindicato dos Comerciários e continuamos próximos um do outro.

Em maio de 1986 saí do Sindicato dos Metalúrgicos, uma vez que o Sr. Djalma perdeu as eleições. Pedi a ele que me despedisse.


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