XIV CAPÍTULO

FACULDADE - PORTAS QUE SE ABREM

Na Faculdade de Direito me dei muito bem. Primeiro porque eu não tinha nada a perder. Eu era um franco atirador e com uma vontade danada de ganhar espaço social e de vencer. Por outro lado, eu tinha a oportunidade de provar que era gente e que podia ser útil de alguma maneira. Felizmente só obtive vitórias naquele curso.

Com muita seriedade e muito esforço vim conquistando amizades e o respeito social imprescindíveis para que um cidadão se sinta bem.

Formado na escola da vida eu logo vislumbrei a minha direção, a direção que eu deveria seguir. Ajudado, é lógico, por sentimentos simpatéticos, em poucos dias me relacionei com colegas que até hoje me lisonjeiam com a sua amizade.

No primeiro ano estudamos na Igrejinha da Glória, porque não havia espaço físico para o nosso curso. Nossa turma foi a primeira da Faculdade e como sói acontecer, foi uma turma bastante heterogênea. Havia aluna com 19 anos e aluno com mais de 60. Poucos nos conhecíamos, mas fomos nos ajeitando igual se estivéssemos em um lotação. Pouco a pouco eram formados grupinhos e o nosso foi, durante os quatro anos do curso, um dos maiores. Genésio, Jacinto, Geraldo Soares, Geraldo Bernardino, Francisco (Xiquinho) e eu. Quando comecei o namoro com Célia ela passou a fazer parte desse grupo, mas de tabela. Também se relacionava bem conosco o saudoso Getúlio Delbem.

Fazíamos os trabalhos em conjunto e estudávamos em conjunto. Havia discussões à beça e muita farra também. Todos trabalhávamos e, nas poucas horas de folga, jogávamos uma sinuquinha, tomávamos uma cervejinha e comíamos uma costelinha.

Não me esqueço de um trabalho de direito penal que, por qualquer motivo, não foi elaborado a tempo e pedimos ao professor que nos desse mais um dia de prazo. Seria entregue em seu escritório, numa cidade próxima a Barbacena. Como todos trabalhávamos, a solução foi adquirir um livro relacionado ao assunto, pedir profissionais para datilografá-lo, colocar aspas de capa a capa e entregá-lo. Dois colegas foram ao escritório do professor e lá chegando se depararam logo com o livro que havia sido copiado. Como estavam com o trabalho nas mãos, não houve outra maneira a não ser entregá-lo.

Tiramos a nota máxima. Talvez por bondade do professor, talvez porque ele entendeu que ao copiar o livro alguma coisa ficaria gravada no nosso subconsciente.

Faculdade nova e muita coisa por fazer.

Pensou-se em criar o Diretório Acadêmico e, tendo me candidatado a Presidente, grande foi a minha surpresa quando um dos amigos pediu-me para rever essa pretensão.

Informou-me ele que era para o meu próprio bem e que ele e os outros amigos não votariam em mim; que eu deveria concordar com esse pedido. Foi o que aconteceu.

O primeiro Presidente do D.A. de nossa FADI foi o Cap. Evaristo que, mais tarde, 24 anos depois de formados, revelou-me ter sido ele, por ordens superiores, um de meus “anjos da guarda” naquele período, ou seja, durante todo o curso e vários anos depois de formados, ele me seguia.

Assim funcionavam as engrenagens daquela máquina chamada Ditadura Militar.

Hoje eu fico pensando: seria vaidade, seria medo, seria maldade...? Ou seria pura ignorância daqueles senhores que se julgavam os salvadores e donos do país?

É claro que o fato do Capitão ter se candidatado e ter sido eleito foi mera coincidência. Também foi ele quem escolheu o paraninfo de nossa turma e quem comandou a comissão de formatura. Nada a ver com jogo de cartas marcadas e, muito menos, com subserviência.

Vencendo todos esses obstáculos, com muita paciência e com muita obstinação, cheguei ao terceiro ano de direito.

O curso, naquela época, era de quatro anos apenas, mas como não tínhamos processo civil no terceiro ano, houve uma pequena resistência da OAB em nos admitir como estagiários.

O D.A. não tomou providência alguma e eu não podia esperar. Iniciar a profissão ainda que como estagiário era muito importante para mim.

Embora alguns colegas dissessem que eu não conseguiria, fui a Belo Horizonte, discuti na OAB, retornei a Barbacena, consegui uma declaração com o Dr. Heraldo Sales (um dos poucos que tinha o escritório registrado na OAB) e, finalmente, consegui não só a minha, mas também a carteira de vários colegas.

Nessa época o professor e amigo Dr. Moacir Pedroso (Juiz de Direito), deu u’a mãozinha para a minha “reabilitação”. Nomeou-me Presidente de Mesa Eleitoral e membro do Corpo de Jurados da Comarca. Distinções honrosas, mas que me deram bastante trabalho.

Estagiário da Caixa Econômica Federal (agente do crédito educativo), eu comecei a ganhar também, algum dinheiro com o meu estágio particular de direito.

A Dra. Vera Dias assinava as petições e eu fazia as audiências. Rendo homenagens a Dra. Vera porque ela abriu, não só as portas de seu escritório, mas também as portas de seu lar para mim. Éramos colegas, sócios, amigos e confidentes. Obrigado, querida.

No início de 1977, por méritos, fui designado pelo então Procurador Geral do Estado para exercer as funções de estagiário no Ministério Público de Barbacena.

Fomos honrados com essa designação o Genésio e eu. Colaboramos, dentro do possível, para o andamento de processos que se encontravam paralisados há muito tempo.

Embora o nosso trabalho tenha sido na área criminal, foi de grande valia para a nossa formação jurídica.

Cheguei ao final do curso. Com humildade, força de vontade, paciência e, claro, com o apoio de meia dúzia de amigos (familiares, colegas e professores), tornei-me bacharel em direito no final de 1977.

Como eu já tinha um pouco de vivência no campo da advocatura, apenas dei continuidade ao meu serviço.

Carteira provisória e, um ano depois, carteira definitiva.


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