XIII CAPÍTULO
RETORNO E SUSTO - LONGA VIAGEM
No final de 1972 resolvemos nos mudar para o Brasil.
Yara havia nascido no dia 1º de novembro daquele ano e apenas
com sete meses de gestação. Não havia muita
esperança de vida. Os médicos diziam que seu organismo
era muito fraco e ela nasceu sem pele. Ao nascer pesava pouco
mais de um quilo e, na segunda semana de vida chegou a ter menos
de um quilo de peso. Ficou na incubadora mais de um mês
e, graças a Deus e às cinco mães do hospital
(as cinco enfermeiras que cuidaram dela), mais as orientações
dos médicos e os nossos esforço e fé, ela
hoje é mamãe de duas lindas garotas e de um robusto
menino.
Acontece que quando ela nasceu, pequenininha e indefesa (não
tinha sequer pele), havia um movimento de greve no Chile que complicou
a nossa situação. Naqueles dias era a greve dos
caminhoneiros que paralisou todo o país.
Yara usava uma pomada especial, muito cara e que não era
encontrada em La Unión, onde ela estava internada. Eu tinha
que caminhar perto de vinte quilômetros para levar essa
pomada e seu alimento especial que vinham de outros lugares, e
por favor de amigos e conhecidos.
Isso acontecia de duas a três vezes por semana. Mas eu
tinha fé que tudo ia acabar bem. Eu dizia aos amigos: dia
1º de novembro é o dia de todos os Santos e se não
bastasse isso, naquele ano caiu em uma quarta-feira, dia de São
José, do qual eu era e sou devoto. Com todos os santos
do seu lado não podia dar outra coisa. Vida longa e saúde.
Ubiratan estava com onze meses de vida e, mesmo assim, resolvemos
enfrentar essa viagem.
Quando dois loucos se juntam a loucura tende a ser maior, certo?
Consultamos o médico sobre a viagem e ele disse que não
havia problema, que Yara já havia passado a parte mais
difícil. Sobreviver como ela sobreviveu... Venceria qualquer
problema dali para frente.
Fizemos a identidade dos baixinhos (até a Yara com apenas
dois meses de vida) e, no começo do ano de 1973, saímos
com destino a Bariloche.
Em Bariloche dormimos uma noite em uma pensão e dia seguinte
conseguimos passagens para Buenos Aires. Preferimos a ferrovia
porque, pensávamos, haveria mais espaço para as
crianças, embora a viagem demorasse um pouco mais. Foram
48 horas até a capital, uma vez que fomos à Baia
Blanca e retornamos de ré até o tronco principal.
Eta viagem difícil. Tínhamos que conseguir água
quente para as mamadeiras e muito tempo dentro do vagão
aborrece qualquer um, principalmente as crianças. Mas tínhamos
que conseguir e conseguimos.
Lá chegando fomos para um hotel próximo à
estação ferroviária, no bairro de Concepción.
Por coincidência o hotel ficava na Av. Brasil. Era longe
do centro e eu tinha que ir à nossa Embaixada para resolver
o meu retorno, uma vez que eu havia tido alguns problemas com
o governo brasileiro.
Aí começou uma bagunça que é difícil
de explicar. Informaram que não podiam fazer nada por mim,
mas que uma pessoa iria me procurar no hotel. Dias depois apareceu
um cidadão que até hoje eu não sei quem era,
dizendo ser da Embaixada, que eu deveria ficar em Buenos Aires
alguns dias e que a Embaixada custearia a minha estadia.
Como eu estava num beco sem saída peguei o dinheiro dele
(U$$ 200,00) e perguntei o que devia fazer em troca.
Ele disse que era coisa simples e que eu não devia me
preocupar.
Bem, ganhar dinheiro para ficar em Buenos Aires turistiando...
Não era mau negócio, pensei. Dias depois ele voltou
e me deu mais algum dinheiro. A roça tava tão boa
que eu mudei de hotel (para um melhor) e começamos a procurar
apartamento para alugar.
Eu fui fazer um curso de relações públicas
para trabalhar em uma empresa grande (Hombres Argentinos de Negócios).
Cheguei a me formar e pensei em dar uma olhadela na campanha eleitoral
que estava em curso.
Informei-me sobre o comitê de Hector Cámpora que
havia se candidatado como espelho de Perón e para lá
eu fui com a maior cara de pau.
Naquela oportunidade fiquei conhecendo o jovem político
Carlos Menem que viria a ser presidente do país por duas
vezes.
Conheci alguns contatos na Juventude Justicialista (base jovem
de Perón) e me inteirei do plano deles. Gostei.
Perón estava regressando da Espanha e como os militares
que estavam sempre de plantão no governo não permitiam
a sua candidatura, entraria Hector Cámpora e Isabelita
como vice. Caso Hector fosse eleito, renunciaria e o poder ficaria
com o caudilho mais famoso das Américas. Deu certo e Perón
voltou a governar a Argentina ainda que de tabela.
... E eu estava ali naquele meio, ganhando dólares e apenas
conferindo o momento político daquele país.
A vitória do peronismo foi esmagadora.
Isabelita não chegou nem perto de sua antecessora no coração
dos argentinos, mas foi presidente por algum tempo.
Eu dizia aos amigos que era pé quente.
Chegando ao Chile propiciei a virada pelo voto e dei posse a
Salvador Allende. Saí de lá e Allende caiu do poder.
Foi enterrado dias depois.
Chegando na Argentina coloquei o peronismo no poder.
Aconteceu que, num determinado dia, o cidadão que me dava
dólares apareceu e pediu para que eu seguisse alguém
e lhe desse informação de todos os seus passos.
Era tudo que eu deveria saber, nem mesmo a sua nacionalidade me
foi fornecida. Apenas uma foto e algumas indicações.
Não foi difícil descobrir que esse cidadão
era brasileiro e que o serviço secreto se interessava mais
pela sua companheira que teria uma banca de revistas em determinado
bairro. Pensei... Eu trabalhar para esses gorilas... Qual é?
Cortei o papo com esse cidadão e como tinha algumas economias
comprei passagens para Porto Alegre.
Antes de partir, percebi que esse cidadão (o dos dólares)
estava me seguindo e, para despistá-lo, entrei no metrô
correndo.
O sombra, que parecia cão das neves, farejou o meu destino
e quando menos esperava, lá estava ele bem pertinho. Foi
um tal de correr pelo centro de Buenos Aires até que me
vi livre do danado. Embarcamos para Porto Alegre. Era uma viagem
de 24 horas de aperto e desconforto. Nossa bagagem já era
um pouco maior porque havíamos comprado algumas coisas
em Buenos Aires.
Chegando na fronteira tive uma recepção brilhante.
Havia um Batalhão da Polícia Federal a me esperar.
Prenderam-me e levaram-me para o carro deles.
A família continuou no ônibus. Informaram que eles
seriam bem cuidados e me esperariam no hotel em Porto Alegre.
Ora, ora, pois, pois, chegando a Porto Alegre (muito antes do
ônibus) me levaram para a sua sede. Perguntaram um milhão
de coisas e deram a entender que o cidadão que havia me
perseguido em Buenos Aires era inimigo e que eles estavam à
sua procura. Queriam a minha ajuda para prendê-lo, caso
ele aparecesse em Porto Alegre. Aí a massa cinzenta ficou
bagunçada.
Para mim esse cara era do serviço secreto do governo brasileiro
e a Polícia Federal tirava onda que queria pegá-lo.
Mostraram a sua foto e eu confirmei que era o mesmo cara. Então
diziam que eu corria perigo e que deveria ajudá-los.
Quando cheguei ao hotel a família já se encontrava
lá. Eu não podia contar tudo a Rosa para não
assustá-la. Como eles não deixavam que eu viajasse
e a família sozinha não poderia vir, ficamos no
hotel por conta de não sei quem. Eu não paguei nada.
Certo dia eu estava próximo a um prédio no centro
da cidade e vi o meu sombra de Buenos Aires. Ele estava tranquilo,
bem vestido e entrou nesse prédio. Lembro que lá
havia um banco e que ele entrou na direção do banco.
Para mim ele era mais perigoso do que os agentes da Polícia
Federal. Desta eu já sabia o endereço e o telefone
e dele eu não sabia nada. Apenas que me seguia.
Telefonei para os homens e em poucos minutos eles chegaram e
em grande número. Cercaram o prédio e alguns entraram.
Ninguém podia sair e ninguém podia entrar; uma operação
que eu nunca havia visto.
Vasculharam o prédio durante duas horas e o delegado saiu
dizendo que não havia encontrado o cidadão. Pouco
depois um agente disse que ele devia ter saído por outra
passagem que eles não conheciam, que seria a entrada dos
malotes.
Depois daquele vexame, uma verdadeira operação
de guerra no centro da cidade e para nada, eles disseram que eu
estava livre para viajar. Achei melhor continuar a não
entender nada, uma vez que o meu interesse era um só: chegar
em Barbacena com a família.
Como eles não ajudaram em nada telefonei para o papai
e ele enviou uma ordem de pagamento para mim, dinheiro suficiente
para o restante da viagem.
Tomamos um ônibus rumo a São Paulo e roda na estrada.
Mais 24 horas até o destino intermediário.
Em São Paulo foi outra ralação. Como era
Semana Santa não havia passagem e tivemos que ficar lá
dois dias. O dinheiro era pouco e não podíamos ficar
na rua. Levei Rosa e as crianças para um hotelzinho bem
“zinho” próximo à rodoviária
e fiquei na rua. Foi a maneira de economizar na diária
o suficiente para a alimentação. Como já
havia comprado as passagens para Barbacena, não me restava
muito. Avisei aos familiares e aguardei com a santa paciência
que Deus me deu e que, nas horas mais difíceis sempre me
socorreu. Tomamos o ônibus para Barbacena e dez horas depois
estávamos chegando aqui.
A família estava toda reunida para nos receber. Terminada
a farra comecei a pensar no sustento da família. Procurar
emprego não estava fora de cogitação, porém...
Eu tinha que conseguir um local para morar. Não seria possível
ficar com os pais, mesmo porque sempre fui contra essa ideia.
Por outro lado, recebi algumas visitas, ainda na casa de meus
pais. Primeiro foi um representante da Polícia Civil que
em nome do Governo Estadual foi me saudar e, aproveitando a oportunidade,
levou um questionário de um milhão de perguntas
para mim. Foi uma prova de amizade que eu não posso esquecer.
Eles ainda queriam controlar a minha vida.
Dias depois foram os militares da Aeronáutica; levaram
o convite do comando para que eu, no dia seguinte, estivesse pronto
às 7 horas da manhã para uma pequena viagem... Nada
não, coisa de rotina, é só para prestar alguns
esclarecimentos.
Para provar a boa fé eles disseram que eu poderia levar
algum familiar ou amigo junto. Talvez ficássemos alguns
dias no Rio, mas não era para preocupar porque o hotel
já estava reservado.
Na hora marcada o carro do comando parou em frente à casa
e eu, em companhia de mamãe (ela nunca havia andando de
avião, embora fosse um sonho antigo), fomos para o aeroporto.
Havia uma aeronave esperando por nós.
O destino era o Rio de Janeiro. Viajamos somente os dois e a
tripulação. Lá chegando fomos direto para
o hotel, onde mamãe ficou bem alojada e eu fui para uma
repartição que não conhecia.
Tive que contar a minha história todinha e meus interlocutores,
ávidos por notícias, queriam saber até o
que eu nunca soube. Bem tratado, boa alimentação
e o papo foi até tarde da noite.
Os meus novos anjos da guarda me deram um número de telefone
para eu me comunicar com eles caso necessário, mediante
uma senha preestabelecida e que mudaria sempre.
Não entendi bem aquele recado, porque a única coisa
que eu queria era tranquilidade para viver. Pediram-me, inclusive,
que desse o referido número para uma pessoa de confiança
porque se acontecesse algo comigo essa pessoa os informaria do
ocorrido.
Retornamos no dia seguinte e a vida continuou o seu curso normal
para nós. Pelo menos para uma coisa esse convite serviu:
mamãe estava radiante; gostou muito da viagem.
Esse cuidado comigo os militares mantiveram até bem depois
de terminada a faculdade. Seguiam-me e se metiam com a minha vida
sempre que achavam necessário.
Papai ofereceu um lote seu que ficava próximo à
Basílica de São José para que eu construísse
lá um barraco provisório.
Aceitei a oferta e com um meia colher (pedreiro que ainda não
é profissional, mas que entende alguma coisa) e um servente,
comecei a obra.
Rabisquei planta de um barraco meia água, cuja construção
seria rápida e barata e em menos de um mês mudamos
para lá. Sala, dois quartos, cozinha e um pequeno banheiro
do lado de fora. Estava bom demais para quem não tinha
nada.
Apareceu a oportunidade de emprego na Rede Ferroviária
Federal e eu me inscrevi. Tendo passado nas provas escritas, fui,
com outros candidatos, fazer exames médico e físico
na cidade do Rio de Janeiro.
Aprovado também nesses exames, me mandaram para Conselheiro
Lafaiete, para um curso de três meses. Telégrafo,
tráfego ferroviário e normas gerais. Nessa altura
eu já estava com a carteira de trabalho assinada.
Para não ficar longe da família que tinha dificuldade
de adaptação (idioma e costumes), aluguei uma casa
em Lafaiete para levar Rosa e os filhos.
Embora eu não soubesse, Rosa já estava tramando
a sua volta para o Chile. Até a temperatura os incomodava.
Um pouco de razão e um pouco de frescura.
Terminado o curso voltei para Barbacena onde trabalhei pouco
tempo. A seguir me mandaram para a Estação do Barreiro,
próxima a Belo Horizonte. Eu viajava de ônibus e
de trem, quando conseguia passe e praticamente não dormia.
Era uma barra.
Poucos dias depois de eu estar trabalhando lá, papai foi
me visitar, o que me assustou. Felizmente não era problema
e sim uma boa notícia. Havia sido criado o Curso de Direito
em Barbacena e o prazo para as inscrições terminava
naquele dia. Caso me interessasse, eu devia retornar imediatamente
para fazer a inscrição. Topei a parada e no mês
seguinte já estava matriculado.
Era a primeira turma e eu não conhecia praticamente nenhum
colega. A maioria não era gente de meu relacionamento,
ademais de eu haver passado muitos anos fora do país.
Com o início das aulas, no mês de abril de 1974,
nós teríamos aulas até durante as férias.
Acontece que eu fiquei num dilema danado. Não dava para
conciliar as duas coisas. Ou eu parava de trabalhar ou não
estudava. Em poucos dias cheguei a essa conclusão.
Pensei em uma solução rápida para esse problema
e fui procurar o chefão, o engenheiro que poderia resolver
o problema. Eu só não sabia que ele não era
muito civilizado. Parece que tinha medo de alguém tomar
o seu lugar e por isso não ajudava os estudantes.
Raimundo era o nome dele. O Dr. Raimundo para “me ajudar”,
uma vez que eu havia pedido transferência para Barbacena
ou algum lugar mais próximo, me transferiu para Ibirité,
local que dificultaria, ainda mais, os meus estudos, porque teria
de trabalhar em Águas Claras, na MBR.
Não gostei dessa atitude ridícula do chefe e fiquei
pensando em como me livrar dessa enroscada. Eu não podia
perder a oportunidade de fazer aquele curso e, por outro lado,
como me manter na faculdade sem trabalho?
Conversando com os novos amigos da faculdade, descobri que um
Cartório do Fórum necessitava de uma pessoa para
trabalhar.
O Jacinto era muito amigo do titular desse Cartório e
me indicou. Arthur Quintão, que já conhecia a minha
família e é gente boa, deu-me essa oportunidade.
Bem, a Rede Ferroviária já não era tão
importante assim para mim.
O meu último dia de trabalho foi muito interessante. Eu
não havia pedido contas, mas precisava sair para iniciar
no novo emprego.
Numa certa hora, o Dr. Raimundo me informou que um vagão
levando a chefia da Rede iria para Águas Claras. Por isso
deveria ter prioridade no tráfego.
Muito bem, quando os maiorais subiram (com eles estava o Dr.
Raimundo) eu facilitei o máximo para que seu veículo
não tivesse problemas.
Os problemas começariam quando eles quisessem descer.
Ao invés de manter a linha desocupada, só para complicar,
eu liberei uma composição de muitos vagões
para buscar o minério.
Nesse caso o vagão da chefia ficou preso até que
fossem carregados todos os vagões da composição.
O carregamento era rápido, mas como havia muitos vagões,
eles tiveram que esperar lá em cima algumas horas. Depois
de liberá-los, é claro que com pedido de desculpas
(eu não sabia; não entendi bem, etc), arrumei as
minhas coisas e vim para Barbacena definitivamente. Até
hoje não deram baixa em minha carteira profissional. É
duro trabalhar com gente limitada ou maldosa.
Pouco tempo depois conheci Célia e fiquei sabendo que
seu irmão era o chefe do Dr. Raimundo, o que mudaria o
final dessa história, com certeza. Mais tarde Célia
veio a ser minha esposa e o Dr. Lauro, Presidente da Rede. Essas
coisas acontecem.