XII CAPÍTULO

O INESPERADO

Pequena carona até o trevo de Osorno. O veículo ia para a cidade, mas eu preferi ficar no trevo. Não era minha intenção ficar naquela cidade desconhecida e da qual eu nunca havia ouvido falar. Andando por uma pequena rua daquele bairro que ficava do lado oposto da cidade, na saída para a Argentina, fiquei conhecendo Ernesto. Era um macetero (marceneiro), trabalhava com madeira de lei (alerse) e fazia vasos para plantas. Trabalho artesanal e muito interessante. Seus vasos eram todos de encaixe, não tinham pregos e nem cola.

Homem simples e muito delicado convidou-me para um café em sua casa. Eu era o primeiro brasileiro que ele via e estava feliz com a minha presença. Mais tarde fiquei sabendo que eu era o único brasileiro no sul.

Sua esposa, Madalena, era Mapuche (índia) e muito positiva como de resto todos os índios o são. Tinham um filho (Juanito), menino de uns dez anos e que frequentava a escola do bairro. Conversando comigo eles descobriram que eu não tinha destino certo e me convidaram para ficar uns dias em sua casa.

Casa pequena, humilde, mas que tinha muito calor humano. Ficariam felizes em hospedar um brasileiro e me convenceram a ficar.

Logo me interessei pelo trabalho do Ernesto (também eu tinha que fazer alguma coisa para pagar a pensão). Pedi a ele que me ensinasse a fazer vasos e ele se prontificou. Professor paciente e aluno interessado. Deu certo e em poucos dias eu já estava ajudando na sua pequena fábrica.

Para incentivar-me, o amigo propôs uma porcentagem na minha produção. Quando atingia um determinado número de vasos (eram de três tamanhos), os levávamos para Santiago onde ele já tinha freguesia certa.

Poucos eram vendidos em Osorno e região. Fiz com ele duas viagens a Santiago e, como eu já conhecia a cidade (mais do que ele) aproveitei para rever alguns amigos e matar a saudade. Íamos de trem e nas paradas tomávamos café batizado (café com pisco - aguardente) costume que até hoje eu conservo, principalmente no inverno. É gostoso e esquenta pra burro.

Juanito, nas horas de folga, estava sempre perto de mim, levava os amigos para me conhecer e contava para todos que tinha um amigo brasileiro. Na cidade eu pouco ia, ficava mais perto de casa.

Adaptei-me tanto que alguns chilenos não se davam conta de que eu era estrangeiro, já que eu falava o chileno perfeitamente. Sim, chileno, não espanhol.

Ademais de algum regionalismo e de uma forte influência alemã, havia um sotaque bem distinto, razão pela qual eles diziam que falavam chileno e não espanhol.

Madalena era um número à parte. Sincera e espontânea, que nem ela mesma. Conservadora a ponto de ameaçar-me.

Aconteceu quando eu tomava a primeira sopa em sua casa. Sopa de tudo, inclusive cebola, que eu como somente crua. Comecei a separar a cebola em um canto do prato, sem perceber que estava cometendo um delito muito grande. Para os mapuches, rejeitar comida é uma grande ofensa.

Felizmente o Ernesto estava por perto e evitou o pior. O que importava realmente é que eu morava naquela casa simples, como um membro da família. Para um vagamundo como eu, aquela oportunidade era mais do que o esperado.

Certo dia surgiu a oportunidade dos trabalhos de verão que naquele ano seriam no sul do país.

Inscrevi-me e, aceito, parti com o grupo para um assentamento campesino na cordilheira da costa, nas margens do Rio Bueno, rio caudaloso e de profundidade desconhecida.

Juanito ficou muito chateado, mas entendeu que eu devia partir. Também eu não estava me despedindo para sempre. Certamente voltaríamos a nos encontrar, como de fato aconteceu.

Feliz com a nova tarefa integrei-me ao grupo de voluntários e dediquei-me à construção de casas (todas de madeira) e a tarefas outras.

Como o sol no verão se põe mais tarde (as noites eram das 22h às 4h), trabalhávamos até as 19h, 20h e, após o jantar (cena) nos juntávamos para tocar violão e cantar (folclore e protestos eram os pratos principais).

O relacionamento era bom. Havia jovens de várias localidades e alguns do exterior. Trocávamos ideias, experiências e nos entendíamos muito bem.

Eu era bastante solicitado para animar a garotada. Uma de minhas tarefas era ensinar futebol e samba, tarefa que me deu muita popularidade no assentamento.

Embora no meu grupo eu fosse o único brasileiro, fiquei sabendo que em outras frentes havia outros. Éramos jovens de vários países que formávamos uma grande família com os campesinos.

Pouco tempo no assentamento e fiquei conhecendo Rosa, a diretora da escola local. Ela tinha duas filhas: a mais velha tinha dez anos e a caçula, quatro. Esta foi o motivo da conquista. Era adorável aquela loirinha. Amorosa, sapeca... Agarrou-se tanto comigo que eu era como um pai para ela.

Ato contínuo comecei a me entender com sua mãe e, em poucos dias, já estava vivendo com elas.

Terminados os trabalhos de verão, como era de esperar, eu não retornei com os colegas. Resolvi ficar com a princesinha (como eu chamava a baixinha), com Iracema e com sua mãe. Formávamos uma família normal, ou seja, como se nos conhecêssemos desde o início.

Poucos meses depois eu e Rosa nos casamos na vizinha cidade de La Unión, onde vivia uma de suas irmãs. Dona Zoila, minha sogra, era uma viúva muito simpática e me dava bem com ela, assim como com todos os cunhados. Tito, Oscar, Olga, Minda e Joana. Os sobrinhos também eram muito amáveis.

Tia Mary era especial, é especial. É aquela tia de todos, querida por todos e respeitada por todos. É como se diz: joga em todas as posições. É solteira e vive atualmente com Rosa.

Nós íamos sempre a Rio Bueno e, no inverno, a única saída de Nueva Trinidad (nome do assentamento) era pelo Rio Bueno. Tínhamos que navegar umas duas horas e depois tomar o trem ou o ônibus (la micro) até Rio Bueno. Entre abril e agosto a topografia mudava e muito. Onde passávamos de carro, nessa época era somente de barco. Era uma façanha porque o Rio Bueno, também nas partes inundadas, era muito forte e correntoso.

Rosa foi promovida em seu trabalho e mudamos para Rio Bueno, embora ela trabalhasse em Osorno.

Como eu não tinha estabilidade de cidadão (era apenas um refugiado), trabalhava clandestinamente. Comprava madeira na cordilheira da costa e vendia em Osorno e, também, ajudava muito nas tarefas domésticas, uma vez que Rosa passava o dia fora de casa.


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