XI CAPÍTULO
RUMO AO SUL
No parque me juntei a alguns muchileiros chilenos que se preparavam
para ir a Puerto Montt. Um deles era de Valdivia e estava retornando
para casa. Éramos quatro homens e duas mulheres.
Saímos numa noite depois de uma boa despedida com vinho
quente e laranja. Outros companheiros ficaram de ir depois e nos
encontraríamos lá.
Descendo pela pan-americana paramos em várias cidades
e povoados. Era o mês de dezembro de 1970 e as plantações
de cereja além de proporcionarem um visual esplêndido,
nos fornecia um pouco de calorias. Naquela época viajar
de mochila e fazendo dedo era bastante comum e os locais sempre
apoiavam esse tráfego humano.
Caravanas de estudantes, famílias inteiras, muitos estrangeiros...
Todos rumavam para o sul que é belíssimo também
no verão.
Em Concepcción fiquei hospedado na casa do irmão
do professor Darci Ribeiro. Lá comi o melhor salmão
de minha vida - fabricação caseira.
Em Temuco reencontrei Tiago de Melo que havia ido palestrar para
professores primários.
Na saída da cidade paramos dois dias em um pequeno povoado.
Muita cereja e os locais nos convidaram para ficar em uma escola.
Eu fazia mais sucesso que os colegas por ser brasileiro. Todos
queriam conversar comigo. Perguntavam coisas, contavam e cantavam
seu amor por Chile, seu patriotismo. “De onde vienes? Para
donde vás? Le gusta Chile?” Essas perguntas eu as
ouvi durante os quatro anos que vivi no Chile.
Em Valdivia fiquei na casa do companheiro que ia conosco. Seu
pai, homem da lei e amante da música clássica, ouvia
e cantava ópera a toda hora. Pessoa boníssima. Sua
esposa não deixava que eu lavasse sequer um par de meias.
Era véspera de Natal e fiquei conhecendo uma tradição
do sul do Chile e que me encantou e me emocionou. Esquinazo é
uma visita itinerante, ou seja, famílias visitam famílias
levando comida e bebida. Umas se juntam às outras e vão
para outro lugar e há uma verdadeira confraternização
entre as pessoas que participam.
Comem, bebem, cantam canções natalinas e dançam
com toda a espontaneidade. É algo que ficou marcado na
minha memória. Fui tratado como ente querido, como amigo.
Saindo de Valdivia nos juntamos a um grupo maior de mochileiros
que iam para Puerto Montt. Éramos uns 30 (mais três
brasileiros e alguns de outras nacionalidades).
Passamos pelo trevo de Osorno e fomos para Puerto Varas. Em Puerto
Varas, que é outro cantinho do céu, dormimos uma
noite. Aquele lago, aquele céu... A natureza é realmente
muito amiga do Chile.
Dia seguinte caminhamos para Puerto Montt. Alguns não
pegamos carona. Puerto Varas está bem próximo de
Puerto Montt. Em Puerto Montt meu grupinho preferiu um alojamento
comunitário por ser mais barato e não ficar muito
longe do centro. Ficava no alto de uma colina e a vista da cidade,
do porto e da ilha era muito bonita.
Na ilha (Isla Tenglo), conheci uma garota muito simpática
que cuidava de seus irmãos menores e de alguns sobrinhos.
Ela ia em seu próprio barco e este ficava ancorado próximo
à praia.
Como ia diariamente, ofereceu o barco para que eu transportasse
turistas do continente para a ilha e vice-versa.
Topei a parada e durante alguns dias ganhei uns trocados trabalhando
de piloto do remo e, certamente, me divertindo muito.
Certa tarde nos descuidamos e quando percebemos a maré
já estava ficando nervosa. Na ilha só estávamos
nós – ela, as crianças e eu.
Ela ficou desesperada e disse que tinha que ir de qualquer jeito.
Os dois remando, as crianças agachadinhas e as ondas cada
vez mais fortes.
Para uma travessia que durava em média 20 minutos, levamos
mais de duas horas e passamos um grande susto. Ela nem tanto uma
vez que estava acostumada com o mar e com o remo.
Eu quase morri de medo. Na mesma hora me veio à cabeça
o episódio de Florianópolis. Eta marzão bacana
e traiçoeiro. Cheguei a pensar que não mais veria
a família, os amigos... que era o fim. Aquele barquinho
parecia uma caixinha de fósforos no oceano pacífico
(que é pacífico só no nome).
À noite eu sempre ficava na praça de armas, geralmente
a praça principal de todas as cidades chilenas.
Era verão, mas lá no extremo austral, à
noite, a temperatura cai um pouco. Eu vestia sempre a minha pala
(um tipo de ponche gaúcho) presente do Cilón Estivalet,
o gaúcho de Santiago.
As noites de Puerto Montt naquela época eram como uma
festa das nações. Havia gente de toda parte do mundo
e todos estavam ali para curtir.
O centro da cidade era um imenso salão de festas. Uns
dançavam, outros contavam casos, outros cantavam... Era
uma verdadeira confraternização universal.
Eu estava sempre dançando e tirando fotos com os turistas.
Alguns até pensavam que eu era um chileno doidão
(do tipo popular).
Com isso eu fiquei bastante conhecido naquele meio e fiz muitas
amizades, principalmente com estudantes do norte que iam em grupos
grandes, em excursões organizadas (gira estudantil).
Ali fiquei conhecendo Mabel Fonseca, uma garota de Chillan que
estava com a sua turma de colégio. Ficamos muito amigos
e passamos bons momentos juntos. Ela era muito simpática
e, creio, de família abastada. Praticava hipismo, tinha
um porte altivo e muita personalidade. Queria comprar um colar
que eu tinha e que era presente de um colega mochileiro. Pensei
em não vendê-lo e até hoje ele está
em minha casa - pertence à Célia; lhe dei como presente
de noivado quando cursávamos o último ano de direito.
Mabel ficou na minha mente todo esse tempo e chegamos a nos corresponder
durante alguns anos, mesmo depois que eu retornei ao Brasil.