X CAPÍTULO
CAMPANHA POLÍTICA E CASAMENTO
Embora não fosse correto e nem mesmo permitido fazer campanha
política no país que me acolheu, me esqueci do México
e entrei de cabeça na luta pela mudança. Havia possibilidade
de uma revolução branca naquele país.
Eduardo Frei mantinha um regime de força maquiado de democracia.
Reprimia seus adversários com violência e a cada
dia perdia o controle da situação.
Pelos atos públicos já se tinha a impressão
de que o Chile seria o primeiro país do mundo a enveredar-se
para a esquerda pelo voto.
A eleição de Salvador Allende ficou conhecida como
a revolução branca.
Como não tinha de cumprir horário, me relacionei
muito com os hippies que ficavam no parque municipal, paralelo
à Alameda Bernardo O’Higgins e, em poucos dias, eu
já estava noivo de Julia, uma estudante de 15 anos.
Nessa altura eu já morava em uma casa grande (ao lado
do Cerro San Cristóbal) com muitos iguais e já fazia
parte daquela comunidade.
Julia morava comigo e resolvemos nos casar. Foi um casamento
maravilhoso... Ricardo, o anfitrião, não mediu esforços
para que fosse marcante a cerimônia de nosso casamento.
Toda a comunidade estava presente (havia representantes de vários
países).
Houve o corte nos dedos para a união de sangue, comida
farta, frutas e vinho quente com fatias de laranja... Uma delícia.
Casados fomos morar na casa dos pais de Julia, em um bairro distante
do centro (La Granja - Av. La Serena).
Oscar, seu pai, trabalhava em uma padaria no centro de Santiago
e sua mãe, a simpática Rosa, cuidava da casa, dos
filhos (eram quatro) e participava da vida comunitária.
Era (é) uma pessoa maravilhosa.
Era comum haver reuniões periódicas de parte da
colônia de exilados e refugiados brasileiros, ora na casa
de um, ora no apartamento de outro.
Assim, fui conhecendo todas aquelas feras. Professores, pintores,
economistas, médicos, poetas... (Salvador Lozaco, Edmur
Fonseca, Darci Ribeiro, Tiago de Melo, entre outros) brasileiros
que, como eu, amargavam a vida de exilados ou de refugiados.
Quase todos trabalhavam, prestavam a sua colaboração
ao país que os acolhera. Pelo menos publicamente eles não
participavam da política local.
Melhorando o meu espanhol, fui também fazendo amigos e
me sentindo mais livre.
Para um vagamundo como eu, que havia entrado no país ilegalmente,
podia me sentir satisfeito.
Como um mensageiro da sorte, comemorei com os chilenos, brasileiros
(a colônia era bem grande em Santiago), uruguaios e outros
cidadãos do mundo a vitória da liberdade contra
a opressão. Foi um carnaval e tanto em Santiago.
Após conhecer esses brasileiros que, de certa forma, comandavam
a nossa comunidade, fui morar em uma pensão a convite deles
(nessa altura eu já estava meio divorciado de Julia).
Essa pensão era mantida praticamente pela colônia
brasileira. Os que percebiam bem ajudavam os demais. Muitos já
haviam deixado o país, mas continuavam enviando a sua ajuda.
Lá vivia um casal de gaúchos. Cilón fazia
um curso de fotografia e Suzana fazia o curso de teatro na Universidade
do Chile.
Como eu já havia feito teatro em Barbacena, consegui ir
a algumas aulas como ouvinte e, a cada dia, aumentava o meu círculo
de amizades.
Embora continuasse fazendo bicos (servente de pedreiro, de carpinteiro,
reforma de móveis, telhados, lanterninha de cinema... O
que aparecia eu pegava), eu já conhecia bem Santiago e
as cidades próximas.
Participei do Festival Internacional de Rocas de Santo Domingo,
o que não agradou aos membros da colônia. Era um
festival da juventude, de grandes proporções e do
qual se esperavam exageros, o que não aconteceu.
Foi tudo paz e amor do começo ao fim, mas os amigos pensavam
que eu não deveria ter participado devido a minha situação
no país - eu era apenas um refugiado.
Reconheceram-me na telinha em um dos flashes do festival.
Por intermédio de um novo amigo, sobrinho de um deputado
chileno, fui cuidar de um sítio localizado em uma das regiões
mais lindas do Chile - Cajón de Maipú, município
de San José de Maipú - bem próximo de Santiago.
Encravada na cordilheira, San José de Maipú é
uma daquelas paisagens de cinema. Estradinhas formando meandros,
ora tranquilas, ora dependuradas e lá embaixo aquele corregozinho
manso de água cristalina, deslizando romanticamente pelo
vale verde, verde, muito verde mesmo.
Tomava o lotação (la micro) pela manhã e
voltava à tarde.
À noite ajudava amigos como lanterninha de cinema e ganhava
alguns trocados, ademais de assistir aos filmes graciosamente.
Não estava mal, porém... Eu queria mais; não
era aquilo que eu havia sonhado. A minha caminhada ainda não
havia acabado. Forças interiores me impulsionavam para
frente. Eu não podia parar muito tempo. Realmente me sentia
bem no trecho. Era como se eu tivesse nascido para ser um vagamundo.
Comecei a fazer planos e me veio na cabeça ir para o sul.
Por que não? Eu não conhecia nada do sul; ao contrário,
já havia percorrido quase todo o norte daquele belo e contrastante
país. Geleiras e deserto convivem em paz. Temperaturas
de trinta graus ou mais durante o dia e de zero ou menos à
noite.
A colônia continuava a me dar apoio, mas eu não
me sentia bem. A minha situação era tão interessante
que um jornal de Santiago (El Mercúrio) chegou a publicar
uma reportagem minha com o título “muerto vivo”
com foto e tudo o mais que tinha direito.
Não consegui o passaporte brasileiro, não podia
trabalhar oficialmente, resolvi protestar. Fiz um cartaz duplo
de papelão e sai pelo centro de Santiago dando bronca nos
dois países - um não me fornecia documentos e o
outro não permitia que eu trabalhasse. Fui em frente à
Embaixada do Brasil e na porta do Palácio “La Moneda”.
Um verdadeiro programa de índio aquele protesto solitário.
Não surtiu efeito. Ir para o sul foi a minha saída.