I CAPÍTULO

NASCIMENTO, INFÂNCIA

Foi no tempo da segunda guerra mundial.

Na Europa o som mais ouvido era o troar dos canhões. Enquanto homens se digladiavam nos campos de batalha, na fazenda do Brejo Alegre, município de Carandaí, interior de Minas Gerais, eu fui dado à luz. Era o dia 27 de setembro de 1942.

Meus pais, José Coimbra e Maria Rosa (Dona Rosa), eram pequenos agricultores que lutavam com muita dificuldade pela sobrevivência.

Embora o som dos canhões ecoasse distante, as consequências de seus estrondos estavam presentes em todos os lugares; sendo a intranquilidade e a falta de alimentos as piores delas em nosso país. Adoçavam-se café e mamadeiras com garapa e com balas de chupar, quando encontradas.

Meu pai possuía algumas vacas, criava porcos e plantava milho, feijão, mandioca, produtos com os quais ele mantinha a família de seis pessoas.

Josué era o mais velho, nasceu no dia 27 de agosto de 1938; Rosina em 29 de agosto de 1939 e Jáder em 29 de setembro de 1940. Interessante a repetição das datas, não?

Eu era o quarto filho e fui gerado como o último da família. Criado na zona rural, lá vivi até a idade de quatro anos. Mesmo considerando as dificuldades da época tive uma infância feliz.

Liberdade, ar puro, frutos frescos e a paz que acompanhava a vida rural naqueles tempos eram ingredientes indispensáveis para uma vida saudável e feliz, bem como para a formação de minha personalidade. Eu fui criado nesse ambiente.

Do despertar do sol ao manso poente tudo era lindo.

Aprendi com meus pais a observar, admirar e respeitar a natureza, nossa mãe natura.

Devido à idade do meu irmão mais velho, meus pais resolveram mudar para a cidade sede do município. Carandaí era uma cidade de quinze mil habitantes mais ou menos e bastante conservadora. Um padre, dois médicos e um político dividiam o comando do lugar.

Casa própria, construída com muito suor, mas era farta e bem localizada.

Senti alguma diferença. Embora Carandaí fosse uma cidadezinha pacata, eu senti um pouco porque lá já havia alguma restrição da liberdade. Da liberdade que eu conhecia. No campo havia muito espaço para brincar, para correr... A liberdade era quase total.

Na cidade, apesar da horta ser bem grande, havia muros, havia controle de espaços e eu não estava acostumado a isso.

Com o passar dos anos fui me acostumando com a nova maneira de viver. Vizinhos, amigos, brinquedos... Compromissos com a religião e outras obrigações.

Como os três irmãos estavam estudando, comecei, bem cedo, a me interessar por lápis e papel, tendo aproveitado aqueles anos com muita vontade de viver.

Alguns anos depois aconteceu um fato marcante na minha família.

Josué foi vítima de duas enfermidades sérias - tétano e paralisia infantil. Desenganado pela medicina foi salvo pela fé, estando hoje com 70 anos.

Eu, por incrível que pareça, não contraí, sequer, uma das doenças comuns a todas as crianças naquela época - sarampo, coqueluche e varicela. Todos os meus irmãos e vizinhos as tiveram e eu, convivendo sob o mesmo teto e em contato constante com os enfermos, não as tive. Dizia-se, naquela época, que melhor seria se eu as contraísse enquanto pequeno. Até hoje eu não as conheço.

Dona Rosa também tinha problemas de saúde - asma - e os médicos que cuidavam dela (inclusive um cunhado) diziam que ela não morria de pirracenta que era. Ela viveu mais de 60 anos com esse problema, vindo a falecer com 82.

Na idade correta da época, iniciei os meus estudos no Grupo Escolar Bias Fortes de Carandaí, que ficava a um quarteirão de minha casa. Eu era um aluno comum, mas um pouco rebelde. Certa vez, para não tomar vacina na escola, fiquei quase o dia todo escondido no mato.

Na escola havia aquelas briguinhas de criança que as professoras tinham que controlar, principalmente antes e depois das aulas e durante o recreio.

Quando passei para o segundo ano primário, Josué foi para o seminário em Nova Friburgo.

Ano seguinte, Rosina, tendo terminado a sua primeira etapa de estudos, veio estudar no Colégio Imaculada Conceição de Barbacena. Na sequência, Jáder também foi para o seminário na cidade de Mariana.

Dois anos mais tarde foi a minha vez, preferi o Prejuvenato São Geraldo de Barbacena, onde permaneci menos de um mês.

Num espaço de vinte e poucos dias fugi três vezes, sendo que na última meu pai resolveu deixar que eu ficasse em casa. Continuaria os meus estudos no Ginásio Municipal de Carandaí.

Como era comum na época, cursei o quinto ano primário (equivalente ao curso de admissão ao ginásio).

Josué e Jáder desistiram do seminário e vieram estudar na Escola Agrícola de Barbacena.

Não haveria mesmo padre na família. Para meus pais, apesar da desilusão, foi importante essa mudança de rumo. O custo era bem menor, fora a vantagem de estarmos juntos e na mesma cidade.

Em 1955 demonstrei interesse em estudar com os irmãos, no que fui atendido. Para meus pais nada melhor do que ver os quatro filhos estudando em uma mesma cidade e bem próximos de casa.

Nesse ano fui ouvinte (frequentava as aulas sem compromisso), candidato ao curso de iniciação agrícola. Ano seguinte, tendo passado pela prova de habilitação, iniciei o curso e também uma etapa diferente em minha vida.


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