| DAS EXPRESSÕES
IDIOMÁTICAS
Um idioma universal, como o esperanto, talvez facilitasse
o entendimento entre os povos. Nisso e noutras lorotas
acreditam os seres de boa-fé, caso ainda existam.
Mas seria possível também fabricar em
laboratório expressões similares a todas
aquelas que dão sabor e autenticidade à
fala de cada nação?
Para inglês ver evidencia simulação,
efeito ilusório. Ao chegar a Salvador, D. João
VI viu a cidade noturna iluminada, a fim de homenageá-lo.
Como viajara escoltado pela esquadra britânica,
ele exclamou: - Está bom para o inglês
ver.
Afrontas e injúrias contra fidalgo eram penalizadas
com multa de quinhentos soldos. Em caso de reincidência,
o infrator não podia alegar já ter pago
uma vez. Sem choro nem vela, seriam outros quinhentos.
Nhenhenhém se refere a interminável conversa
fiada. Presume-se que seja um dos mais remotos brasileirismos.
O índio tagarela azucrinava o portuga que, saturado
de palavras incompreensíveis, assim imitava a
lenga-lenga, o xororó ou blá-blá-blá.
Arrolhadas com cortiça, as primeiras cervejas
fabricadas no Brasil exigiam barbante para prender a
rolha ao gargalo. Era a única forma de resistir
à fermentação. Por isso, marca-barbante
virou sinônimo de coisa ordinária.
O fulustreco não passa de um fulaninho. Criatura
que não fede nem cheira. Um treco se aplica a
coisas de insuperável desvalor, as quais, entre
castelhanos, se diriam tareco. Fuluz, por sua vez, remete
a moeda árabe de ínfimo poder aquisitivo.
Quarenta fuluzes equivaliam a um vintém. Era
cunhada em cobre e desprovida de efígie assim
como de serrilha.
Costuma-se dizer que mulher menstruada está
de paquete, que é um tipo de embarcação.
Onde é que está a graça? No século
XIX, uma vez por mês, zarpava da Inglaterra um
paquete rumo ao Rio de Janeiro. No mastro tremulava
a bandeira comercial inglesa, de cor vermelha.
Eis aí a origem de uns poucos linguajares, apurados
com todos os efes-e-erres por Câmara Cascudo,
e que são de se tirar o chapéu. Quem não
os apreciar periga dar com os burros n´água,
ou mesmo meter os pés pelas mãos. |