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DERROCADA DE UMAS MERRECAS

Bastou o noticiário mencionar séria crise na economia, e Alvacir Miraflores temeu por seus caraminguás que dormitavam na poupança. Era pai de duas moçoilas gastadeiras, mas seu pecúlio permitia cobrir o rombo que berloques e toaletes eventualmente lhe causavam no orçamento.

Como persistiram dias afora as manchetes alarmistas, Alvacir passou a vasculhar os jornais, em busca de orientação. Falava-se em bancarrota, subsídio, forças criativas do mercado e protecionismo estatal. Nenhum desses clichês foi capaz de esclarecer suas expectativas. Alvacir acreditava em gastar apenas dois terços do salário, à custa de férrea disciplina. Se o esforço não desse resultado, a vida perderia o sentido.

Um de seus comparsas mais confiáveis era agiota. Alvacir admitiu que dispusesse de conhecimento específico e lhe indagou a respeito da balbúrdia financeira, mas continuou aturdido. Após uma filosofança sobre captação de recursos, política monetária e flutuações da taxa cambial, tudo o que lhe restou foi a noção de que ninguém neste mundo punha a mão em grana viva. Todos viviam de clicar índices eletrônicos, numa jogatina desenfreada.

Num recanto intocável de sua alma poluída, Alvacir Miraflores pretendia viver entre coelhos, quatis e marrecos que o fizessem tropeçar a cada passo, mas antes que o mal se tornasse irremediável, ele puxou cem mil-réis da poupança, comprou um garrafa de conhaque e guardou o troco debaixo do colchão. A fé lhe assegurava que, passado o porre e curada a ressaca, seu pixulé voltaria a cobrir o excesso de vaidade das filhas insaciáveis.

E NINGUÉM SABE COMO ESTOUROU O CARTÃO DE CRÉDITO

A professora apreciava um chope. Mal o garçom a serviu, ela sacou da bolsa o telefone celular. Ligou para a escola e pediu que guardassem o livro esquecido na sala de aula. Após o segundo gole, ligou novamente. Precisava saber dos filhos. Enquanto se informava sobre o destino dos pimpolhos, chegou o amigo, antiga paquera que ela aguardava, ou seja lá o que for.

Falaram durante quase meia hora, estimulados pelos primeiros chopes e pelo impacto de estarem frente a frente. De repente, o papo murchou. Ele acionou o celular para a empresa que dirigia, a fim de saber se haviam cumprido suas instruções de fim de tarde.

Em seguida, a professora teclou seu aparelho para saber se, na escola, haviam encontrado o livro. Mal desligou, o amigo deu um clique no número de um parceiro, com quem marcara um churrasco para o dia seguinte: - Tá confirmado, né?

Sem perda de tempo, a professora fez contato com a filha mais velha, a quem precisava instruir sobre a maneira mais adequada de se trajar para a festa daquela noite. E na seqüência, sustentando na mão os respectivos aparelhos, desandaram a comparar suas propriedades eletrônicas:

- O seu tem câmera digital?

- Minha agenda pode ser acessada tanto pelo número quanto pelo nome.

Se entusiasmaram a tal ponto que, após repassarem o telefone de amigos comuns, gastaram as duas horas seguintes se falando pelo celular, embora estivessem cara a cara, sentados numa mesa de bar.

Publicado em 31/10/08



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