Voltar à principal
Imprimir
Contato

SE É PRA INVENTAR, DEIXA COMIGO

O hábito de ler tudo o que cai do céu – entre dois cochilos reparadores - costuma me levar a certos disparates que, por instantes, já não sei se foram leitura ou sonho. Reaberto o livro, muitas vezes lá está o absurdo numa frase inquestionável, ainda que traduzida.

Isso se deu com uma obra de Pascale Casanova (signorina ou mademoiselle?), detentora de vários lauréis no circuito universitário. Pois a moçoila afirmou (*) que, durante a Semana de 22, os loucos modernistas rasgaram em cena um exemplar d’Os Lusíadas. Minha Santa Virgulina – valei-me. Conheço minúcias desse festival de ‘Sumpola’, mas nunca me deparei com tal desacato ao velho Camões. A rapaziada – como era de se esperar – pirraceava com o passado imediato, mas nunca com os grandes clássicos. Só pode ser chutômetro, imaginação desvairada ou irresponsabilidade.

Entre as lorotas de 22, há um Villa-Lobos de casaca e chinelos, por conta de calo nos pés, gota ou coisa que o valha. Os tomates e batatas lançados ao palco, assim como relinchos e miados, dizem ter sido aprontação orquestrada por Oswald de Andrade, que pretendia a mazorca total.

Tudo isso tem raízes documentais. Mas já que os brazilianistas, acatadíssimos, mentem desavergonhadamente, eu me sinto liberado para enfiar o pé na jaca. Tripudiar é comigo mesmo, e por isso lhes garanto que, cansado da impertinência de Sílvio Romero, num fim de tarde Machado de Assis lhe sapecou um par de bolachas no escutador de samba, quando se cruzaram em plena Rua do Ouvidor, quase esquina de Quitanda. As provas do incidente, registrado pela imprensa, foram destruídas por um de seus maiores idólatras, ao tempo em que ocupava o cargo de diretor da Biblioteca Nacional.

Na categoria de fatos não testemunhados, se inclui uma grossa escaramuça entre José Lins do Rego e Nelson Rodrigues. Abrigados a um canto da tribuna do Maracanã, em dia de Fla-Flu, eles se disseram poucas e boas, por conta de um pênalti e dois impedimentos que povoaram sua imaginação febril. Como era previsível, tudo se limitou a retórica de literatos que caminharam juntos até o bonde.

O que não se contestou – sobretudo porque que nunca divulgaram – foi o fato de Carlos Drummond de Andrade ter sido flagrado num desfile da Banda de Ipanema, lá pelo final da década de setenta. Fantasiado de Napoleão, ele se esbaldava ao ritmo de ‘Mamãe, eu quero’, comemorando a extinção do nefasto AI-5. As fotos que documentavam o ato pândego foram perdidas por um boêmio que decidiu tomar banho de mar no Arpoador, em certa madrugada de verão.

Quem acha que já é muito não imagina que, nos idos de 1967, eu e Marcos Flávio Gonçalves saímos da Sala Cecília Meireles e nos dirigimos ao velho Capela, rente à Escola Nacional de Música, onde encontramos o octogenário Manuel Bandeira lá pelo sétimo chope, mas ainda capaz de dizer que estava a ponto de ir-se embora pra Pasárgada.

Por essas e outras, faço minhas as célebres palavras de Capistrano de Abreu: fanatismo, solidão e libações constituem os maiores inimigos da História.
__________

(*) A república mundial das letras. Estação Liberdade, 2002, p. 344.

Publicado em 28/03/08



Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos publicados no Barbacena On Line,
de qualquer forma, em qualquer meio (sites, portais, rádios, revistas ou jornais) sem a autorização, por escrito, do Editor.
© Copyright 2001 - 2008 .:. Barbacenaonline .:. Todos os direitos reservados
Rua Cônego Vieira, 30 – 3º andar - sala 304 - Centro – Barbacena – MG - CEP: 36200-040
Telefone: 00+55+32+3331-7086 - ramal 21