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MÁRIO QUINTANA, UM GAÚCHO INESPERADO

"O único problema da solidão consiste em como preservá-la". Ao longo de oitenta e oito anos, desde o nascimento em Alegrete, ele se manteve coerente com essa afirmativa. Passou a vida em quartos de hotel e dizia não ter se casado porque era melhor ser "a esperança de muitas que a desilusão de uma só". Entre os poemas do celibatário, porém, ´A oferenda` é bastante revelador:

“Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio".

Em 1930, conhece o Rio de Janeiro, alistado num batalhão de voluntários. Surpreendente? Para um poeta, nem tanto. Assim como também não surpreende seu espantoso talento de tradutor e de
humorista travesso. Em relação ao Rio, por exemplo, ele dizia apreciar, acima de tudo, o momento em que entrava nos túneis. A seu ver, era a única forma de descansar da paisagem.

Atravessou a vida versejando e gracejando. Quando se entediava, entrava num cinema, do qual saía distribuindo epigramas: "O ruim dos filmes de faroeste é que os tiroteios acordam a gente no melhor do sono". Em se tratando de produção oriental, argumentava: "Se cortassem as mesuras dos filmes japoneses, não sobraria um único de longa metragem".

Mafalda, mulher de Érico Verísimo, gostava de tricotar e oferecia meias de lã a todas as visitas. Como Quintana freqüentava a casa com assiduidade, acabou estranhando: - Ela deve pensar que sou uma centopéia.

O frasista dava expediente na redação do Correio do Povo, de Porto Alegre, mas mantinha seu modo peculiar de encarar as tarefas: "O que prejudica minha preguiça prejudica meu trabalho". Por ocasião da descida do homem na Lua, enquanto os colegas de jornal se deslumbravam, ele rabiscava uma quadra:

"Todo astronauta que se preze
Há de trazer pelo menos
Um dos anéis de Saturno
E uma camisa de Vênus".

Leitor contumaz de romances policiais, Quintana acabou por associá-los à psicanálise, definindo-a como "uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora".

Durante certo tempo, ele pirraceou com outro poeta que também morava na Rua do Rosário. Ambos disputavam a primazia de ser o maior poeta do logradouro. Um dia, Quintana afirmou que o amigo passava a ser o maior poeta do reduto. Ante o espanto do rival, ele declarou: - É que eu me mudei para a Rua do Riachuelo.

Quando uma irreversível notoriedade o alcançou, ele foi curto e grosso: - Prefiro ser alvo de um atentado a ser alvo de uma homenagem: um atentado é mais expedito e não tem discurso.

Ainda assim, costumava aceitar convites para autografar livros no interior do estado. Ao lhe perguntarem se tem preferência por algum tipo de automóvel para o percurso, Quintana responde: - Marca, não. Cor, sim. Azul.

Deve ter sido durante uma dessas curtas viagens que ele observou: "A maior tristeza das estradas é não poderem andar por onde querem". E seguiu perambulando por Porto Alegre, pela Rua da Praia, contemplando o Guaíba e o pôr-do-sol, fontes de inspiração para seus infindáveis aforismos:

"Um dueto de ópera não te dá a impressão de namoro de gato?"

"O que tem de bom uma galinha assada é que ela não cacareja."

"A verdadeira couve-flor é a hortênsia.”

“O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente
linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria”.

Publicado em 25/04/08



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