| PERIGOS DESTA
VIDA
Existe uma época do ano que pede inércia
total. Se fosse possível, valia a pena recorrer
ao congelamento: um mês fora de circulação.
Porque a tubulação de seu apartamento
vai provocar infiltrações no vizinho,
e não haverá ninguém que dê
jeito. Tão certo como dois e dois são
quatro.
Também não adianta espalhar sal grosso
e dentes de alho por toda a casa. Qualquer antídoto
fracassa. Se você reencontrar amigos, a conversa
será tediosa. Não fuja para o banco mais
longínquo do parque, porque há de aparecer
alguém para aporrinhá-lo.
Se o seu time jogar uma partida decisiva, não
ligue rádio nem tevê. Só assim as
chances de derrota serão minimizadas. Não
se meta a bulir com eletricidade, para evitar um curto-circuito.
Seu computador, com certeza, vai dar 'tilte' ou pegar
um vírus. Parentes, então – criaturas
complicosas a qualquer tempo – será bom
manter distantes.
Se conforme com uma vida regrada e faça dieta.
Se cuide. Evite lambiscar até mesmo uma bala
de hortelã, que pode ter ultrapassado o prazo
de validade. E nem isso impedirá que seus intestinos
sofram uma rebelião. No trabalho, use boca-de-siri.
Não dê margem a pirraça ou maledicência.
De modo algum faça operações financeiras
ou transações comerciais. A Bolsa de Valores
pode enricar o mundo inteiro, mas levá-lo à
bancarrota. Ainda que Drummond tenha dito que “lucro
é o prejuízo de alguém que espera
lucrar amanhã”, se acautele. Nesse período
maléfico, a menor especulação poderá
levá-lo a permutar um palacete na Riviera por
um par de chinelos gastos.
Muito cuidado. Tudo é possível, e nada
lhe será favorável. Um porre ligeiro vai
lhe dar o maior bode e uma ressaca incurável.
Fique quieto no seu canto. Dizem que isso é conseqüência
de inferno zodiacal. Mesmo que não acredite nos
astros, convém não brincar com fogo.
Seja um racionalista astuto. Bruxas são invencionice,
embora, ainda ontem, tenha avistado uma velhota enrugada
que me fez cara feia. Fingi que não vi, mas,
por via das dúvidas, fui à praia dar um
mergulho de descarrego. E não voltei convicto.
Seria melhor ter-lhe jogado um beijo ou mandá-la
às favas? |