| FLAGRANTE FORJADO
NO AMBIENTE DO SAMBA CARIOCA
Jair do Irajá, desde moleque, deu plantão
na portaria de um sonolento instituto de previdência.
O cargo lhe rendia uns parcos caraminguás, mas
ele se ajeitava numa vaga da Rua Senador Pompeu, onde
era possível abrigar, sem recriminações,
todas as mulatinhas que circulavam pelos sambas do Estácio,
da Praça Onze e até mesmo da Mangueira.
Ele fazia sucesso também nos botequins, embora
sua dotação orçamentária
não lhe permitisse ir além de duas cervejas
e um traçado. Mas o Jair, Jajá do Irajá,
tinha um bom gogó e conhecia o repertório
dos amigos de Donga, Sinhô e Ismael Silva, que
nunca veio a público. É possível
que apenas o jovem boêmio Manuel Bandeira, em
companhia de Villa-Lobos, tenha escutado essas preciosidades
que o tempo engoliu.
A grande loteria de Jajá foi uma reclassificação
do funcionalismo, que lhe permitiu amealhar uma bolada
e sair da pindaíba. Na mesma época, ouviu
dois compositores alinhavando um samba em mesa de boteco.
Jair pediu licença e afirmou que a rima, mais
que capenga, era uma pinóia. Sugeriu uma mexida
e ganhou parceria. Acabou se dando muito bem, pois o
samba arrebentou.
Faz dois meses que imagino ter visto Jair do Irajá
na Rua do Resende. De bermuda e camiseta, debaixo de
óculos escuros, aposentado e satisfeito com os
lucros advindos de seu único sucesso, hoje antológico,
ele instala uma cadeira na calçada às
quatro da tarde. Enxuto e luzidio, pergunta pelo delegado
de polícia, seu amigo, que toda tarde bebe com
ele umas cervejas.
Enquanto espera, Jajá do Irajá bole
com suas correntes douradas, ajeita o pixaim com dedos
repletos de anéis, saboreia a celebridade e relembra
velhos carnavais. Muito considerado pela velha guarda
de todas as quadras que freqüenta, compor um samba
foi coisa que nunca na vida lhe aconteceu. Nem precisava. |