| ROTEIRO PARA
UM ESCARCÉU DEVERAS BELIGERANTE (final)
Vez por outra, Américo Sensível esbarrava
com Juventino Boaventura, colega de escola, que havia
chegado ao departamento de pesquisa de um centro cultural.
Juventino esculhambava as pretensões do velho
amigo:
- Teatro de temas populares? Você enlouqueceu.
Quem se importa com povão? Isso não rende
nada. Shakespeare tratava de reis. Sempre cagou para
o populacho. Toma juízo.
- Mas é preciso resgatar – e Juventino
esbravejou, dizendo que nada disso interessava. Cultura
era outro papo.
Enquanto Américo e Juventino quase saíam
na porrada, Vanda recebeu novo convite para ser destaque
em escola de samba. Foi requisitada duas ou mais vezes
por Nilo Cascais, que a levou para a Enseada dos Reinóis.
Teve ida e volta de helicóptero, embolsou sua
merreca, bebeu champanhe e se entregou além do
que exigia um desempenho profissional. Mas Vanda Salazar
não se arrependeu.
Dias mais tarde, passou diante do armarinho de Alcimar
Perdulário, que elogiou sua beleza. Como haviam
chegado a uma certa cumplicidade, desde que ela se mudara
para o bairro seis meses atrás, Vanda confessou
que Nilo Cascais lhe enchia a bolsa e fazia sua cabeça.
Alcimar estimulou a memória e regrediu à
notícia de que o sucesso de Casfonides &
Associados estava associado ao nome de Nilo Cascais.
Numa cervejada, comunicou a Tonhão Tibúrcio
essa novidade que, por vias transversas, chegou ao conhecimento
de Chica do Mafuá.
Língua-de-trapo, a birosqueira passou conversa
adiante. Bagulhete, que circulava entre os pagodeiros,
registrou a informação. Subiu para o cafofo
que ocupava, quase na crista da favela, e danou a cismar
sobre o destino da irmã. Não engolia sua
vida mundana, mas na verdade lhe invejava a facilidade
de se safar desta vida porca.
Até se deparar com Nilo Cascais, Vanda nutria
um caso com Astolfo Malandrini, carcamano arribado há
quase uma década, que vivia de mínimos
arranjos. Vinha sendo pura relação prazerosa,
mas ela começou a cogitar de rompimento, pois
percebia que Nilo representava a possibilidade de associar
a fome à vontade de comer.
Malandrini reagiu ao desprezo e foi em busca de Bagulhete,
já que eram farinha do mesmo saco. Era o quinto
dia de um calor insuportável, que prometia tempestade
para quando menos se espera. O irmão reafirmou
que Vanda o azucrinava, mas não quis parceria
com o muquirana, pois tinha em mente um projeto pessoal,
que começou a executar no dia em que Vanda Salazar
voltou a se encontrar com a mãe.
Enquanto ambas escarafunchavam plantações
no quintal, colhendo salsa, cebolinha, folhas de couve
e jabuticabas, Bagulhete se apoderou do celular da irmã
e vasculhou seus contatos. Encontrou o número
que Nilo Cascais fornecera a Vanda, para a eventualidade
de desencontros. E no mesmo instante desandou a fazer
chantagem.
Exigia um cascalho grosso para não molestá-la,
e insinuava até mesmo a hipótese de seqüestrá-lo.
Nas confidências de cama, Nilo Cascais já
soubera da existência de Bagulhete. Por isso mesmo,
espichou as tratativas e enviou homem de confiança
para saber do padre Eliomar e do pastor Sandoval qual
era a força de Bagulhete na Vila Joanense.
Um ou dois gabiraus o advertiram de que sua batata
estava assando, e Bagulhete não se deu por achado.
Alcimar Perdulário, que não perdia um
lance sequer na jogatina da vida, garantiu a Tonhão
Tibúrcio que Bagulhete já era, mas não
acrescentou detalhes. E assim foi. Quando Lourival disse
a Anastácio que a aventura de Bagulhete poria
em risco seus negócios, o xerifão cuspiu
no terreiro e determinou que a magriça Carmélia
o levasse pra cama.
Foi dessa forma desairosa que Bagulhete saiu da vida,
sem ter entrado nem mesmo para a história da
Vila Joanense.
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