| QUATRO DÉCADAS
DEPOIS DE MANUEL BANDEIRA
Sem esforço de memória, sou capaz de
anunciar que outubro está registrando quarenta
anos da morte de Manuel Bandeira. Eis aí uma
notícia difícil de se redigir. Porque
não faz sentido falar em comemoração
ou homenagem, a não ser que uma perversão
guie nosso sentimento. Bandeira saiu deste mundo aos
oitenta e dois anos, mas até hoje faz uma falta
enorme. O poeta, o cronista e sua personalidade são
insubstituíveis por uma simples razão:
a modéstia de um talento inigualável.
Dizer que 13 de outubro me veio à mente sem
dificuldade equivale a uma declaração
de presença constante. E tanto isso é
verdade que há quatro anos concluí uma
biografia que desde sempre povoou minha imaginação.
O fato de não ter sido publicada pouco interessa
no momento. Mais importante será esclarecer certos
aspectos relacionados a esse personagem marcante das
letras nacionais.
O primeiro deles é desmascarar a falsa idéia
de que um tuberculoso solteirão não reúne
elementos que justifiquem uma biografia. A vida de Bandeira,
efetivamente, não oferece episódios para
um filme de ação, no gênero ianque.
Mas os apreciadores da formação e consolidação
de uma sensibilidade artística certamente encontrarão
motivos para acompanhar seu percurso.
Percurso ou itinerário - como ele preferiu -
rumo a Pasárgada. E o mais curioso é que,
a pretexto de um verso, de uma amizade ou de descobertas
poéticas, ele mesmo vai modestamente oferecendo
subsídios para quem pretende rastrear sua vivência
literária, que alcançou culminâncias
inexcedíveis.
Cabe recordar, a propósito, que numa época
povoada de vanguaradas furiosamente programáticas,
Bandeira formulou um conceito de inspiração,
reduzindo-a a seus termos mais simples. Segundo ele,
inspiração não passava de “uma
certa facilidade, que em determinado momento nos ocorre,
para fazer alguma coisa”.
Outro aspecto relevante em relação a
Manuel Bandeira é desfazer a falsa noção
de que o tísico era um pobre-coitado, incapaz
de se defender. O laudo do médico suíço,
em 1914, dizia que ele dispunha apenas de meio pulmão.
Ao longo da vida, porém, Bandeira teve ocasião
de evidenciar sua bravura em situações
extremas. Por isso, pobrezinho do poeta debilitado é
conversa pra boi dormir. Polêmicas literárias
foram aperitivo da juventude. Depois de cascudo, por
desfastio, se encrencou com o Partidão e com
o poderosíssimo General Lott. Melhor seria ter
escrito mais vinte poemas. Mas ninguém é
perfeito.
Manuel Bandeira, aliás, é também
acusado de indiferença a questões políticas.
Ressalvadas as picuinhas supramencionadas, é
bom lembrar que, em 1950, instigado por Sérgio
Buarque de Holanda, aceitou ser candidato a deputado
federal pelo Partido Socialista. Não fez campanha
e pouco se importou com o resultado. Obteve pouco menos
de cem votos, mas se disse satisfeito por ter suplantado
Augusto Frederico Schmidt, que, no pleito anterior,
alcançou apenas terça parte dessa votação.
Foi mais uma das desprendidas atitudes do poeta que,
um dia, concentrou suas preocupações sociais
num poema sucinto:
Que importa a paisagem, a Glória, a baía,
a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco. |