| As aventuras
De tanto meu pai de santo de plantão, Eduardo
Dutra, dizer que estou muito saudosista nos meus textos,
busquei inspiração no fundo do baú.
E vamos logo à história, que é
o que nos interessa. No Oriente, vivia um homem muito
bom, justo e pobre, chamado Ali Babá. Certo dia,
do alto de uma tamareira ouviu o tropel de cavalos.
Logo avistou quarenta cavaleiros. Pouco depois os homens
voltaram com seus cavalos ruidosos. Na manhã
seguinte, Ali Babá ouviu o mesmo barulho da véspera.
Eram os mesmos quarenta cavaleiros. — Chega de
folga! Temos de descarregar o que roubamos hoje.—
disse o chefe. “Por Alá! Eles são
ladrões!” concluiu Ali Babá. Chegou
ao lugar em que haviam parado e viu o chefe descer do
cavalo. Os trinta e nove ladrões continuavam
montados. O chefe gritou: — Abre-te, Sésamo!
Uma grande rocha da pedreira se moveu, abrindo a entrada
de uma gruta. Os quarenta ladrões entraram em
fila e, após o último, a caverna se fechou.
E Ali Babá esperou até que ouviu o barulho
da pedra se movendo novamente. Os ladrões saíram
em fila. Por último o chefe. E, voltando-se para
a grande pedra, falou: — Fecha-te Sésamo!
A pedra rolou novamente, fechando a entrada do esconderijo.
Ali Babá esperou e saiu de trás da árvore...
Estancamos aqui a narração para que o
leitor não perca o suspense de seu desfecho,
quando ler esta maravilhosa história.
“Ali Babá e os Quarenta Ladrões”,
“Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”,
“Aventura nos Sete Mares " e “Simbad”
fazem parte de uma coletânea de contos orientais
que constituem a obra clássica As Mil e Uma Noites
(Alf Lailah Oua Lailah), datados do século XII
e que maravilhou autores tão diversos como James
Joyce, Edgar Allan Poe, Jorge Luís Borges, Isak
Dinensen, Machado de Assis, Voltaire, Proust e Stevenson.
O enredo é muito simples: o Califa de Bagdá,
traído por sua mulher, manda matá-la e
resolve passar cada noite com uma esposa diferente,
que determina seja degolada na manhã seguinte.
Recebendo como mulher a Sherazade, esta iniciou um conto
que despertou o interesse do rei em ouvir-lhe a continuação
na noite seguinte. Sherazade, com este truque nas suas
histórias, conseguiu encantar o monarca por mil
e uma noites e foi poupada da morte.
Pesquisando esta obra me surpreendo em saber que Sherazade
aparece em poucas histórias, e que os tantos
contos que ouvíamos na nossa infância,
contém um forte apelo sexual.
Na verdade aventuras fazem parte do nosso imaginário
desde que assumimos a postura ereta, e nos fascinam,
principalmente pelo risco.
Como naquele dia em que acompanhei o já famoso
ator do cinema brasileiro, Paulo César Pereio,
que estava em Belo Horizonte, a convite do pessoal de
cinema, numa excursão etílica pela cidade.
Ele parecia estar incorporando o tempo todo um personagem
debochado e fanfarrão.
Num barzinho famoso da época, capitaneado por
uma badalada pintora, depois de fazer charme com todas
as mulheres que encontrou pela frente, resolveu, sem
nenhum motivo, se engraçar com dois atléticos
rapazes, que pelo corte de cabelo militar e stitude
deviam pertencer a alguma guarnição do
Exército.
Em pleno vigor do AI-5, Paulo César Pereio vituperou
contra os milicos em geral, xingou as mães deles
e fez todo tipo de histrionismo contra os homens, e
se bem me recordo uma pistola automática apareceu
em meio a confusão, sem mais, nem menos.
Ao lado de Pereio, eu já imaginava qual seria
o nosso triste fim de noite, morgue da cidade e como
notícia policial no “ESTADO DE MINAS”.
Apanhando uma cadeira ele ameaçou os dois oponentes
que ele mesmo criara como se fossem leões no
picadeiro de um circo mambembe qualquer. E dizia seu
palavrão predileto sem cessar...
O anticlímax da história foi que os freqüentadores
do local, eternos boêmios, conseguiram serenar
os ânimos, sem o concurso da polícia. Da
minha parte, com as pernas tremendo, coube a ingrata
tarefa de retirar o ator daquele local, com muita dificuldade
e levá-lo até o hotel.
Depois daquela noite nunca mais nos encontramos. Vez
por outra assisto seu programa Sem frescura, no Canal
Brasil e por leitura de revistas fico sabendo que continua
cada vez mais rabugento e iracível, em fase descendente
na carreira e pretendendo comandar uma campanha pela
implosão do monumento do Cristo Redentor, no
Rio de Janeiro...
Esta foi uma pequena aventura, com pouca adrenalina
e sem o charme das narrativas mirabolantes de As Mil
e Uma Noites, mas que poderia ter terminado tragicamente
e a qual eu não gostaria de repetir...
|