| Sua vida
O exercício da leitura, para mim, mais do que
uma necessidade, transformou-se em mania.
Daquelas que nos fazem ter atitudes inexplicáveis,
como transformar o banheiro em sala de leitura.
Li de tudo que me passou pelas mãos, desde romances
prazerosos até insípidos manuais técnicos.
Toneladas de revistinhas em quadrinhos, que muitos pensam
ser uma coisa infantil, mas são muito influentes
na cultura atual.
Gosto de ler também biografias, apesar de não
ser fanático pelo gênero.
Mas devorei três delas; a de Chalie Chaplin, a
de Winston Churchill e a de Samuel Rhea Gammon.
O primeiro, um grande ator e diretor de cinema que hoje
seria considerado um multimídia. O outro, um
estadista, que levou a Inglaterra a resistir aos nazistas
e sair vitoriosa. Logo aviso a todos que nenhuma das
duas obras não é uma leitura fácil
e em muitos momentos pensei mesmo em desistir.
A outra, “Assim brilha a luz”, de autoria
de Clara Gammon, conta a vida de um missionário,
Samuel Rhea Gammon, responsável pelo Instituto
Gammon, em Lavras, onde estudei, meu pai, Renato Aquino
Pádua, foi professor e meu tio, Roberto Coimbra,
professor e diretor. Meus filhos, Rodrigo e Ricardo,
também lá estudaram.
O colégio completou agora 139 anos de fundação,
o que não é fácil num país
onde todas as coisas são tão efêmeras.
Samuel Rhea Gammon, filho de Audley Anderson Gammon
e Mary Faris Gammon, nasceu aos 30 de março de
1865, em Bristol, estado da Virginia, Estados Unidos
da América do Norte.
Formou-se em Teologia em 1889. Após decidir-se
por sua vinda para o Brasil, como Missionário,
a Segunda Igreja Presbiteriana de Alexandria, no mesmo
estado, responsabilizou-se por seu sustento. Embarcou
para o Brasil aos 23 de novembro de 1889 no navio "Advance",
que fazia a viagem em 33 dias. Chegou ao Rio de Janeiro
na manhã de Natal de 1889 e dali foi para Santos,
de onde, de trem, chegou a Campinas, SP, sede do campo
missionário ao qual se destinava, em 27 de dezembro.
Seu primeiro trabalho, delegado pela Missão,
foi a direção do Colégio Internacional.
Em setembro de 1892 foi aos Estados Unidos tratar da
mudança do Colégio para Lavras, MG, retornando
em junho do ano seguinte. Em 8 de julho de 1893 chegou
a Lavras para reassumir a direção do Colégio.
Aos quatro de julho de 1928, o Rev. Samuel Rhea Gammon
morreu, à bordo de um carro especial da Central
do Brasil, no desvio de Barra Mansa a caminho de Lavras.
Até aí a história da vida deste
grande homem, capaz de abrir mão de sua cidadania
para erguer uma grande obra numa região sem nenhum
progresso.
O que move estes homens capazes de modificar o curso
de suas vidas para melhorar o que chamamos de civilização?
De Charlie Chaplin, um menino abandonado, diziam ter
um “ego” maior do que o mundo. Recordo-me
que páginas e mais páginas de sua biografia
são dedicadas as honrarias que recebeu de dignatários,
os reis e rainhas da sua época.
Churchill, segundo os historiadores e pesquisadores,
sofria de um distúrbio bipolar, que o levava
da euforia a uma grande depressão. Mas era uma
nobre inglês, que fumava longos charutos, bebia
uísque, gostava de companhia femininas e liderava
os ingleses.
Do que sabemos de Samuel Rhea Gammon, era um homem muito
temente a Deus, simples, mas firme em suas decisões.
Diria que tinha um caráter humanista, pois mandou
escrever no velho prédio do Ginásio, “Dedicado
a Glória de Deus e ao Progresso Humano”.
Todas as biografias tem um sério defeito: ou
enaltecem o caráter do protagonista, ou mais
modernamente, saem a procura de seus deslizes. O que
todos nós, como humanos, temos aos montões.
Não sou um grande homem, nem tenho uma grande
obra.
Certamente se alguém se propusesse a escrever
sobre minha vida, não conseguiria mais do que
umas poucas laudas.
Mas gostaria de deixar registrado que meu grande pecado
foi minha paixão pela tal de criatividade.
A inventividade e talento, não são facilmente
entendidos por nossos companheiros de existência
e nós que os temos vivemos uma certa marginalidade.
Se lograrmos sucesso somos alvos dos holofotes. Caso
contrário, simplesmente nos esquecem.
Esqueça estes livros de histórias fantástica
que são as biografias.
Afinal de contas, sua vida, minha vida, é para
ser vivida, com erros e acertos, em todos os momentos... |