| O amor
Nos acostumamos a ter definições claras
sobre tudo aquilo que faz parte da nossa vida dita moderna.
Assim ocorre desde os assuntos mais corriqueiros até
a teoria cosmogônica mais complicada.
Mas em alguns momentos a dialética falha e ficamos
a ver navios.
Foi o que aconteceu comigo esta semana quando uma leitora
me pediu que definisse o amor.
Logo de começo adiantei-lhe as minhas dificuldades
em navegar por entre este Mar de Sargaços.
Recorro a uma enciclopédia virtual e venho a
saber que a palavra amor presta-se a múltiplos
significados na língua portuguesa. Pode significar
afeição, compaixão, misericórdia,
ou ainda, inclinação, atração,
apetite, paixão, querer bem, satisfação,
conquista, desejo, libido, etc. O conceito mais popular
de amor envolve, de modo geral, a formação
de um vínculo emocional com alguém, ou
com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento
amoroso e alimentar as estimulações sensoriais
e psicológicas necessárias para a sua
manutenção e motivação.
È evidente que minha amiga não irá
se satisfazer com este conteúdo.
Certamente gostaria de tratar do mundo das relações
sentimentais que nos envolve.
Poderíamos examinar atentamente o casal José
e Maria, que vivem juntos há de trinta e constituiram
uma família de sucesso. Mas será que aquele
amor que sentiram um por outro, nascido em uma sala
de cinema, permanece até hoje? É difícil
verificar, porque o ser humano é um grande fingidor.
O que não dizer daquela adolescente, a Chris,
que num curto lapso se entregou a um rapaz que conhecera
numa festa de embalo? O prêço desta aventura
era uma garotinha linda, que andava dependurada nos
braços dos avós e que raramente via o
pai.
Para radicalizar mais ainda como entender o que passou
pela cabeça de Lúcia, que abandonou uma
união estável, filhos e cachorros de estimação
para mudar-se de mala e cuia para a casa de Deborah,
uma amiga de muitos anos e estabelecer uma relação
que nínguem consegue precisar se é homossexual
ou bissexual.
Debruçando-se sobre estes três casos que
considei exemplares não consigo entender os limites
do amor que foi essencial no desenvolvimento do ser
humano sobre a Terra.
Estes são exemplos ligados evidentemente aos
desejos da carne.
Existem, felizmente, os que plantam suas raízes
no apêgo espiritual.
Meu preferido é São Francisco, que nasceu
em Assis, na Itália, entre 1181 a 1182. Até
aos 25 anos viveu a sua juventude como qualquer outro
jovem. Gostava de festas, de se divertir com os amigos
e desejava ser cavaleiro. «Senhor, que queres
que eu faça?» foi um grito de Francisco,
que mudou a sua vida, transformando-o no “pobrezinho
de Assis”.
Neste caso, como de muitos outros, o amor se purifica
a tal ponto que transforma-se na misericórdia
por seus semelhantes.
Outros caminham pela vida agraciados por um ego descomunal
que os faz incapazes de viver o amor como um instrumento
de troca entre seres.
Talvez o melhor conceito de amor estivesse na teoria
da sexualidade desenvolvida por Freud.
Um bom começo seria dedicar-se a leitura de um
livro de Mário de Andrade, “Amar, Verbo
Intransitivo”.
Fora isso o caminho é viver a vida, sem manuais
de sobrevivência e curtindo cada segundo, pois
o amor está ligado fundamentalmente ao nosso
instito de sobrevivência.
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