| Trabalhar menos
Uma lembrança muito clara que tenho do meu tempo
de criança é papai entrar e sair de casa,
cumprindo suas obrigações de professor,
em três turnos por dia, de manhã, a tarde
e a noite.
Minha mãe ficava em casa, mas movimentava-se
o dia inteiro, sempre com alguma coisa por fazer.
Mas, a primeira vez que ouvi falar em trabalho, foi
no primeiro ano do colegial, no Instituto Gammon, nas
aulas de um professor muito competente e moderno, o
Jeová Medeiros, que adotava livros ditos “modernos”,
do Dalton Gonçalves.
O significado da palavra trabalho, na Física,
é diferente do seu significado habitual, empregado
na linguagem comum. O trabalho, na Física é
sempre relacionado a uma força que desloca uma
partícula ou um corpo.
Fui estudar em Belo Horizonte, me enveredei pela prática
do Cinema e vez por outra me vinha a cabeça a
necessidade de parar de viver sustentado pela mesada
do pai e trabalhar.
Tristes experiências! Vendedor de casa em casa,
de vassouras e enciclopédias...
Sempre julguei que quem passou por estas experiências
poderia vender qualquer coisa...
Tive uma excelente possibilidade de trabalho em Furnas
Centrais Elétricas no setor de advocacia em Belo
Horizonte, com o Dr. Mota. Vesti por três vezes
um deselegante terno preto e não o encontrei.
Julguei-o um chato de galocha.
Por uma destas tramas do destino dois anos depois lá
estava eu como funcionário de Furnas, na minha
cidade de Lavras.
Foi então que descobri duas coisas. A primeira
que Dr. Aldo Mota, sobrinho do Cardeal Mota, era gente
fina. E segundo o significado da palavra trabalho.
Trabalhei muito em Furnas Centrais Elétricas,
em diversas cidades do país.
Tanto que quase não percebi o crescimento dos
meus filhos.
Depois, aposentei e pensei que tudo ia ser um marasmo
só.
Qual o quê!
Cada dia mais atividades surgiram na minha vida, culminando
com o trabalho voluntário durante quatro anos
do primeiro mandato como prefeita de Jussara Menicucci.
Curioso é que tivesse ao meu lado uma pessoa
como Eudóxia, que se aposentou como funcionária
do Estado de Minas Gerais, fez concurso para o Município
e continua trabalhando numa escola municipal que ama
muito, o Padre Dehon.
Nossos filhos, Rodrigo e Ricardo, sem nenhuma indicação
política estão fazendo carreiras de sucesso
em suas empresas, baseados principalmente no trabalho.
Uma família de Workaholic, que é uma expressão
americana que serve para designar uma pessoa viciada
em trabalho. Porém, o mundo está mudando.
Já imaginou fazer apenas o que gosta a vida inteira?
Viveria do quê? Sonhos? Se imaginarmos o trabalho
como um fardo, a situação realmente parece
impossível. Mas e se o trabalho, o lazer e o
estudo começassem a se misturar em nossas vidas
de tal forma que não desse mais para diferenciar
uma coisa da outra? Esta é a proposta de Domenico
de Masi, sociólogo italiano da Universidade La
Sapienza, de Roma, e presidente da Escola de Especialização
em Ciências Organizativas, a S3 Studium. Ele defende
a idéia que é chegado o momento de cultivarmos
o ócio criativo para uma nova era. Cada vez mais
pessoas e empresas aderem aos seus conceitos e passam
a ter vidas mais felizes e produtivas.
Todas as vezes que me debruço sobre estas idéias
de Domenico de Masi, tenho vontade de entregar o portal
Lavras 24 Horas para o Flávio Mazzochi, desistir
do próximo livro sobre encomenda que vou escrever,
e trabalhar menos...
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