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Mais bonita

Encontrei-a num final de semana, numa das janelas de um casarão. Emoldurando seu rosto, tranças brancas.

Era Alexandrina do Espírito Santo, D. Xandrica para os íntimos. Nascera em 1910, quando o cometa Halley brilhara nos céus. Criança ainda já vivia no casarão comprado para abrigá-la e as suas quatro irmãs. Sem timidez confessou-me que sempre foi a mulher mais bonita de toda a família. Seus cabelos eram negros e ondulados, pele muito branca sempre protegida por loção de alfazema, lábios carmim e olhos negros, profundos.

Postavam-se as irmãs, cada uma em sua janela, a ver o mundo desfilar diante de seus olhos. Aos domingos, de braços dados, caminhavam juntas até a Igreja Matriz.

Dois acontecimentos marcaram sua vida, que decorria mansamente. O primeiro foi o aparecimento da industrialização, o que levou seu pai, grande fazendeiro, a falência. O outro foi uma rapaz de bigode bem tratado, cabelo untado e repartido ao meio, terno de casimira inglesa, que começou a olhá-la de forma estranha, em todos os lugares. Um dia lhe entregou um buquê de flores do campo e pediu licença para falar ao seu pai o que sentia por ela.

Chamava-se Miguel Arcanjo, proprietário de um pequeno jornal, exímio tocador de violino nas serestas. Conversava bem, sabia se apresentar em todos os ambientes e logo convenceu o pai de D. Xandrica da oportunidade de se casarem. O velho, que vivia ensimesmado, achou que não haveria melhor pretendente do que aquele jovem que fazia inflamados discursos sobre uma tal de liberdade, no Centro Cívico, e as núpcias foram marcadas. Casaram-se numa sexta-feira, 12 de março de 1926. No banquete compareceram várias personalidades, dentre elas, o Presidente do Estado de Minas Gerais e chefe da Aliança Liberal, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade.

Sua mãe fez questão que a filha caçula e o marido morassem no casarão, da Rua da Passagem.Miguel Arcanjo às vezes desaparecia, mas D. Xandrica comentava com as irmãs que para os enamorados não havia dúvidas, poréns, que confiava nele e pronto... Depois corria a escrever poemas, acrósticos, máximas e notas em que registrava suas intimidades e as dos outros ao seu redor, em cadernos que encapava e enfeitava.

D. Xandrica fez questão que entrasse na sala do casarão, para que servisse um licor de jabuticabas que ela mesma fazia. Os móveis eram sólidos, sisudos, fruto de várias gerações, eu vislumbrava enquanto ela remexia o guarda-louça de portas envidraçadas, a procura do licoreiro.

Com Miguel Arcanjo, D. Xandríca tivera cinco filhas. Considerava que o amor era constituído principalmente de pequenos gestos de carinho e o marido era tudo que sonhara. Passeava pela cidade, com lindos vestidos da mais pura seda, que Miguel Arcanjo mandava vir do Rio de Janeiro, sombrinha do mesmo tecido, fizesse sol ou chuva, cabelos presos por uma travessa de madrepérola. Ao seu lado as garotas todas enfatiotadas.

Num dia aziago correram a lhe dizer que Miguel Arcanjo não voltaria nunca mais. Num ato insano o assassinaram a facadas na beira do rio e depois o esfolaram. Coisas da política de então. Mais um crime que nunca seria investigado...

Alexandrina do Espírito Santo vestiu o negro do luto dos pés a cabeça. Seu trajeto agora era até a Irmandade das Dores de Nossa Senhora e rezas a não acabar mais... Quando a noite caía sobre seu leito de viúva, abraçava as filhas e chorava mansinho por seu amor que se fora para nunca mais voltar.

“Mas, não há tristeza que dure eternamente. A vida continuava. Sem herança e sem recursos para sustentar a família, acabei por aceitar, depois de muitas delongas, a proposta de casamento de certo Coronel Olegário, chefe político da região e também viúvo”, disse-me.

Com o velho turrão e vaidoso aumentou a prole em mais três filhos. Sentia imensas saudades de seu primeiro marido, comparando seu gênio folgazão e liberal com a rabugice do Coronel Olegário. E achava-se uma tola, de ter escolhido tal paspalhão, que dispersara a fortuna nas mesas de jogo e vivia de trambiques aplicados nos correligionários.

“Um dia, sentado na cadeira de balanço, Coronel Olegário depois de ter se empanturrado no jantar, gemeu, estrebuchou e entregou a alma para Deus. Ou o Diabo!”, disse sem nenhuma emoção.

Dona Xandrica e eu saímos para o sol a pino do meio-dia. “Lutei bravamente. Vi filhas e os filhos crescerem, constituírem família, uns fazerem sucesso na vida, outros não, mas criei todos graças a minha capacidade de comandar a cozinha, fazendo milhares de docinhos para todas as festas. Grande doceira que fui! Emancipei-me e nunca mais quis saber de homem. E olhe que propostas não faltaram...”, confidenciou.

Uma vez ou outra D. Xandríca preparava carinhosamente um maço de flores e as levava para o túmulo de Miguel Arcanjo, seu único e grande amor...

Com dificuldade afastei-me desta quase centenária senhora, de suas recordações e com os cadernos que me presenteara. Ela foi andando despreocupada com a vida, pelos seus trajetos de sempre, cumprimentando de modo cortês as pessoas que encontrava, inteirando-se de tudo o que ocorria a sua volta e trajando um lindo vestido de seda azul e a sombrinha de sempre...

Publicado em 13/03/08



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