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Ontem, hoje, amanhã

O filme A Montanha dos Setes Abutres (1951), de Billy Wilder, apresenta importantes e atuais reflexões sobre a credibilidade e imparcialidade no jornalismo. Kirk Douglas interpreta o jornalista Charles Tatum, expulso da chamada “grande imprensa” por deslizes éticos. Consegue trabalho num pequeno jornal do Novo México onde curte sua mágoa e espera que surja um acontecimento capaz de levá-lo de volta à elite da imprensa americana, o que ocorre quando descobre um homem soterrado em uma antiga mina. Tatum manipula a família do homem e todos que o envolvem, fazendo uma grande matéria sobre o caso. Curiosos chegam ao local e representantes da tal “grande imprensa”. O jornalista procura se manter “dono” daquela cobertura, inclusive mantendo a vítima soterrada. Billy Wilder nos mostra a face obscura do “jornalismo marrom”, que não se preocupa em transmitir a informação correta e nem a dimensão do fato em si. Constatamos que não só o jornalista Tatum tem culpa no cartório, mas de que praticamente todos estão colaborando de alguma forma para o circo armado. O filme não crítica somente à imprensa e sim o ser humano, no que seu caráter apresenta de pior...

Aqui termina temporariamente a ficção e nos projetamos para a realidade. Este “Grande Carnaval”, que é um dos subtítulos dado ao filme, principalmente em razão de um parque de diversões montado a entrada da mina onde o homem está soterrado, não se parece com algo mostrado pela mídia, nos últimos trinta dias? Vejo claramente nesta metáfora cinematográfica o que ocorreu na cobertura da tragédia da morte de Isabella Nardoni, em São Paulo. Um grande drama familiar, que acontece aos montões na megalópole, com o diferencial de envolver pessoas da classe média. Os miasmas da morbidez envolvendo a todos, o sensacionalismo permeando órgãos de comunicação de todos os matizes e uma insensata retroalimentação de informações geradas por autoridades e jornalistas, num verdadeiro show business tupiquiniquim. Tudo por maior audiência e maior tiragem dos jornais e revistas... Foram olvidados outros crimes de igual natureza que ocorrem diariamente. Então porque tal comoção? Qual o sentido do “jornalismo marrom” prevalecer na cobertura da mídia? Ouçamos o jornalista Charles Tatum, de A Montanha dos Sete Abutres: “A morte de centenas ou milhares de pessoas não tem o mesmo interesse que a morte de uma única pessoa. A morte de milhares é apenas um número, enquanto a morte de uma única pessoa tem "interesse humano", faz com que pessoas ´tenham interesse em saber tudo sobre ela`”. A cobertura jornalística massacrante obrigou-nos a apreender rapidamente jargões policiais, expressões jurídicas, de perícia técnica, psiquiátricas e trouxe a baila novamente o vocábulo madrasta, que não ouvíamos há muito tempo, significando a mulher má, incapaz de sentimentos afetuosos e amigáveis, dos antigos contos de fadas...Não defendemos aqui nenhuma censura, nem somos contrários à liberdade de expressão. O jornalismo pode ser investigativo, informativo ou opinativo, mas precisa de limites...

Independentemente do desfecho desta triste história o que explica um crime desta natureza? Esquecemos que o “Homen sapiens” não passa de um animal inferior que deu certo na cadeia evolutiva. Portanto, carregamos no nosso inconsciente, instintos primários em sua essência, domados pela religiosidade, moral e ética. Muitas das pessoas que tentavam uma quebra do arcabouço jurídico para exercer a pura barbárie da Lei Mosaica, do olho por olho, dente por dente, ululando por “justiça” e “vingança”, nas ruas ou em suas casas, inconscientemente temiam que um dia pudessem ser vitimados pela Síndrome do Médico e o Monstro, popularizada por Robert Louis Stevenson...

Em relação as pirotecnias técnicas que se tornaram um festival de besteiras realizadas no local do crime, inclusive com bloqueio do espaço aéreo, bonecas importadas, etc, seriam risíveis para Sir Arthur Conan Doyle, criador do mais famoso detetive do mundo, Sherlock Holmes, e seu mestre, o Dr. Joseph Bell, cujos surpreendentes métodos de dedução e análise originaram a criminalística moderna...

As pessoas perguntam se o crime praticado contra Isabella Narsoni ficará impune. Com nossa experiência de vida alertamos que não esperem muito. Ou réus confessos, como é o caso do jornalista Pimenta Neves, condenado pelo homicídio de Sandra Gomide, não estão livres por aí, graças aos artifícios que o poder econômico propicia?

Uma missa celebrada na capelinha da antiga Fazenda da Mutuca, propriedade do meu sogro, Francisco Eugênio Ferreira, pelo Padre Israel que mantém há anos um trabalho de recuperação de dependentes químicos, enfrentando inúmeras dificuldades, chamou-me à atenção. Depois de fazer uma avaliação crítica com muito bom senso, do episódio Isabella Nardoni, ele mostrou suas preocupações com os descaminhos comportamentais trilhados pela humanidade. Lembrou então o Papa João Paulo II afirmando que na sociedade atual existe uma “cultura de morte”, que é alimentada em sua essência pelo egoísmo do ser humano.

E para enfrentá-la é preciso lembrar um mandamento que é à base do cristianismo: “ Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Em síntese, ou dominamos nossos instintos bestiais ou voltamos a Idade da Pedra...

Publicado em 07/05/08



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