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Foco

Espanto-me com meu netinho de sete anos, João Gabriel, que não desgruda os olhos de um sofisticado aparelho portátil de vídeo game, que opera com extrema habilidade e inteligência. Como dizia Paulo, o Apóstolo, “No tempo em que eu era criança, falava como criança, sentia como criança, raciocinava como criança...” Será mesmo? Na década de 50, no governo de JK, o Brasil começava a pensar em desenvolvimento, dinheiro era uma raridade e quase ninguém pensava em sociedade de consumo, pois não havia demanda e nem produção e a publicidade chamava-se candidamente reclame... Junto com vizinhos, que se perderam na memória, eu brincava muito com aviãozinho e barquinho de papel, bola de gude, cabra cega, jogava finca, pique esconde, pulava carniça e corda, rolava aro e iôiô, jogava pião, soltava pipa, corria de carrinho de rolimã, jogava bola e bafo bafo...

Um dos primeiros brinquedos manufaturados que ganhei, era de madeira, um interessante sistema de roldanas e alavancas, e foi uma cortesia de uma associação de professores da qual meu pai fazia parte. Mas ele era muito criativo e certo dia me presenteou com uma lupa. Era para ver o mundo das coisas minúsculas. Mas logo descobrimos que ajustando o foco podíamos incendiar folhas de papel e incinerar formigas cabeçudas... Mais tarde a palavra foco passou a ter muita ligação para mim com as câmeras fotográficas e projetores cinematográficos. Até chegar, por um destes modismos da Língua Portuguesa, que geraram o famigerado gerundismo, a ser o vocábulo que dá ênfase ao significado de um determinado assunto.

No artigo “Professor não é coitado”, de Gustavo Ioschpe, publicado na revista Veja, de 12 de dezembro de 2007, o foco é a profissão de professor, com argumentos oriundos da Sinopse Estatística do Ensino Superior. Resisti por muito tempo neste tema que me coçava os dedos esperando veementes contraditórios que provavelmente não ocorreram por estar a classe cansada dos debates que não levam a nenhuma melhora.

Na década de 60, comecei a dar aulas de Português, no Colégio Abgar Renault, em Belo Horizonte, e felizmente, logo desisti, o que deve ter sido o melhor para mim e os meus alunos. Meu pai, que era dentista por formação, deu aulas de Geografia, História, Ciências e Desenho até se aposentar. Minha mãe foi professora e minha mulher até hoje se dedica ao magistério. Meu tio, Roberto Coimbra, até hoje é lembrado como renomado mestre de Português. Ou seja, uma família voltada para o ensino. Por este motivo trato o assunto com certo conhecimento de causa.

Admiro muito as pessoas que trabalham com a estatística, um ramo da matemática que trata da coleta, da análise, da interpretação e da apresentação de massas de dados numéricos e que é largamente utilizada hoje em dia. Dela nasceu a pesquisa, que é a investigação ou indagação minuciosa. Mas, que tem uma tendência muito grande a pretender privilegiar uns em detrimento de outros, por uma série de variáveis que podem ser elaboradas a bel-prazer de quem elabora o trabalho, com erros grosseiros partindo da elaboração dos questionários até a coleta de dados.

No artigo citado, constata-se a existência de 2, 9 milhões de professores em todo o país. O autor então questiona que se a carreira do magistério é tão ruim como se descreve por que tantas pessoas optam por ela? Faz então sua colocação de que a carreira de professor não é tão ruim como a imagem difundida. Na verdade milhares de jovens escolhem o magistério como opção por dois motivos básicos: uma escolha que envolve a vocação e um sentido de abnegação a educação e, o custo extremamente inferior dos cursos de formação com relação a outras áreas, o que favorece o orçamento familiar. Mesmo assim seria interessante olhar para os lados e verificar que inúmeros cursos de Pedagogia, Letras, Filosofia e História estão cerrando as portas. Justamente porque os jovens migram para outros, cujas profissões aparentemente são mais rentáveis.

O argumento de que os professores só exercem seu trabalho em uma escola falseia a verdade de que isto decorre do mercado de trabalho, pois se fosse possível trabalhariam em mais locais para ampliar seus rendimentos. Só para exemplificar, meu pai, até o final de sua carreira, dava aulas em três períodos. E hoje encontrei com um amigo, professor, que mantém uma barraca na feira. Diletantismo? Não. Necessidade, mesmo.

Uma outra crítica presente no artigo de Gustavo Ioschpe, é a de que o professor teria que se preparar fora do seu horário normal da mesma maneira que outros profissionais. Esqueceu-se que ao mestre cabe uma função maior, de transmitir conceitos básicos a manutenção de nossa própria civilização. Além disso, não é fácil levar para casa centenas de provas e trabalhos a serem avaliados. Seria interessante que a pesquisa computasse o número de profissionais estressados nas diversas áreas profissionais. Os professores estariam em primeiro lugar...

Todos os argumentos apresentados no texto são risíveis e quando válidos representam as nossas dificuldades em gerir um sistema educacional consistente. Gustavo Ioschpe poderia ter confrontado a realidade de seus argumentos numa simples troca de e-mails com seu companheiro de revista Cláudio Moura e Castro, escritor, Mestre em Educação e Doutor em Economia, que entende de Educação como ninguém e participou em 1968, do meu documentário São Tomé das Letras... Ou efetuar uma visita aos protagonistas de seu trabalho.

Dizer que os salários são compatíveis com a função chega a ser uma atitude cruel. Existem estados e municípios brasileiros em que o professor aufere menos do que o salário mínimo. Isto quando recebe... E não se pode comparar os salários de profissionais liberais com os de professores, que são em sua grande maioria assalariados e o que é pior, deste ente maléfico chamado governo... Quem deve ter um piso salarial maior: um professor, com anos de serviço ou um soldado da Polícia Militar, recém incorporado as fileiras? Esta pergunta paira no ar e para muitos ainda não tem resposta. Quando o autor descreve as vantagens da profissão esquece-se que são, em sua grande maioria, conquistas válidas, fruto de anos de luta e reivindicações. É preciso lembrar que os escassos recursos para a educação, seja para renumeração de professores, merenda escolar e construção/manutenção de equipamentos tem sido sistematicamente o alvo preferencial do butim dos maus administradores.
Gustavo Ioschpe, que é economista por formação, especialista em educação, e homem de idéias, continua, sempre baseado na Sinopse Estatística do Ensino Superior, afirmando que não existe superlotação nas salas de aula e muito menos violência. Realmente, muitas vezes as salas de aula estão vazias, em decorrência da evasão escolar. Mas, quase sempre cheias de estudantes, até mesmo de diferentes graus de ensino... E quanta a inexistência da violência, na mesma semana que o artigo era publicado, tomei conhecimento de uma outra pesquisa em que 37% dos entrevistados diziam ter visto cenas de violência na escola e cerca de 10% do tráfico de drogas! A grande novidade são os casos de enfrentamentos aos professores em sala de aula, até mesmo a mão armada...

Quanto trata da qualidade das edificações escolares diz ser um mito as escolas de lata. Realmente, em Minas Gerais, proliferaram no governo Magalhães Pinto, anterior ao Golpe de 64. Mas, se sair da sala onde escrevo, em dez minutos encontrarei prédios escolares deteriorados, com instalações elétricas e hidráulicas precárias e outras mazelas próprias do subdesenvolvimento. E o que não dizer da falta de carteiras escolares e quadros negros? Qual didática do professor enfrentará estes problemas?

Enfim, os dados estatísticos de que Gustavo Ioschpe se valeu para escrever “Professor não é coitado” se assemelham, na sua essência, com o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, da ONU, que classificou o Brasil entre os 70 países que obtiveram maior índice. Fruto de uma revisão na expectativa de vida, o que não significa qualquer alteração significativa na desigualdade social. Parecem todos dados oriundos do rico Estado de São Paulo, o que não vale para muitos onde a miséria é tão grande que os administradores vivem de canequinha nas mãos atrás dos tostões... Fico a pensar que a tal Sinopse Estatística do Ensino Superior e o trabalho de Gustavo Ioschpe transformaram-se, talvez inadvertidamente, em incentivo a corrupção e a uma visão míope de nossos problemas na área de ensino.

Para não dizer que não falei de flores, de Gustavo Ioschpe, uma idéia que aceito e não faz parte do tema deste artigo é quando defende a cobrança de mensalidade nas universidades públicas, apesar disto me cortar as carnes. Ou não era eu quem na década de 60 participava de manifestações contra o Acordo MEC-USAID e pela Universidade Pública e Gratuita?

Bom seria que Gustavo Ioschpe colocasse sua inteligência e conhecimentos a serviço de um novo plano de educação para o país, vital para o incremento do desenvolvimento como já demonstram inúmeros países. E não se esquecesse da necessidade de capacitar professores e especialistas, que seriam protegidos também por um plano nacional de cargos e salários vigente do Oiapoque ao Chuí...

Não faço parte da classe, não defendo o corporativismo e nem o sindicalismo fanático, podendo afirmar com toda certeza: o professor brasileiro, não é um coitado, digno de dó, mas um trabalhador desqualificado pela sociedade produtiva.

Publicado em 02/04/08



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