| O equilíbrio
acima de tudo
Certamente você já ouviu ou leu algumas
vezes o texto evangélico da visita de Jesus à
casa de Marta e Maria. Uma cena marcada pela beleza
da amizade e repleta de ensinamentos. A cena nos revela
uma casa acolhedora e duas irmãs preocupadas
em dar o melhor de si para aquele que chega. Cada uma
do seu jeito. Marta, preocupada com os afazeres da casa,
com a cozinha, oferecendo o alimento; Maria sentada
com Jesus, serena, bebendo suas palavras, curtindo a
sua presença, acolhendo o presente que ele oferece.
Diante do quadro, como era a intenção
de Jesus, é inevitável não se perguntar:
com qual personagem me identifico mais? Sou Marta ou
Maria? O que Jesus quer dizer quando fala que Maria
escolheu a melhor parte. Ela estaria certa e Marta,
errada?
Sabendo que toda narrativa bíblica é “simbólica”,
vai além do que se vê e se ouve, podemos
e devemos transportar para nossa vida pessoal, familiar,
comunitária tudo aquilo que a cena revela.
Certamente, hoje em dia, corremos o risco de ser apenas
Martas a vagar pela vida, cheias de afazeres e compromissos.
Num mundo altamente globalizado, onde a competitividade
move nossos impulsos, não temos mais tempo pra
parar, rezar, silenciar ou até mesmo conversar
com os amigos. Tudo isso se tornou sinônimo de
perda de tempo, e ‘tempo é dinheiro’.
Infelizmente, só agimos como Maria quando nos
encontramos em situações difíceis;
sentamos aos pés de Jesus quando o medo ou a
dor nos visita. Só paramos de trabalhar, quando
a doença rouba as nossas forças, ou quando
a idade pesa nos ombros.
Uma lição que nos vem logo é a
importância do equilíbrio em tudo o que
somos e fazemos. Há um tempo para tudo. Cada
coisa tem o seu tempo e o seu lugar. Tudo na medida
certa. Até o remédio em dose exagerada
se torna veneno. E o veneno, na medida certa, bem usado,
pode se transformar em vacina.
O episódio de Marta e Maria vai nos mostrar que
a atitude de ambas é importante e necessária;
e elas se completam. Mas é imprescindível
cuidarmos primeiramente do nosso interior, do nosso
coração, nos abastecer de sabedoria e
de paz. Só depois, estaremos preparados para
organizar o que é externo, arrumar a casa, servir
o alimento. A visita que chega só se realiza
com as duas coisas. A atenção, a acolhida
e o serviço.
Na vida espiritual, podemos dizer que a ação
sem oração e reflexão pode se tornar
ativismo que esvazia. A oração sem compromisso,
desligada do serviço, aliena e acomoda. O ativismo
pode acabar escravizando. O fanatismo religioso é
sempre um perigo.
Olhando para o gesto de Maria, vamos perceber que toda
pessoa que acolhe verdadeiramente a Palavra também
se sente impelida ao serviço. Toda Palavra anunciada
e acolhida gera compromisso.
Por outro lado, Marta nos ensina que ninguém
consegue viver inteiramente a serviço, sem uma
pausa para refletir, avaliar, se alimentar, recarregar
a bateria. Para produzir frutos precisamos fincar raízes
no chão onde se encontra a seiva da espiritualidade.
Embora uma comunidade seja formada por pessoas diferentes;
algumas mais ligadas ao serviço e outras ao silêncio
e oração, é importante que todos
busquem o equilíbrio entre escuta da Palavra
e ação, entre celebração
e compromisso. Sendo capazes de falar e escutar, ensinar
e aprender, caminhar e parar, dedicar-se aos serviços
pastorais e a si mesmos, estar atentos ao corpo e ao
espírito. Devem transparecer em cada um de nós
o corpo ativo de Marta e o coração passivo
de Maria. |