| “Não
quero ter razão; só quero ser feliz”
Parece-me que já chegaram a escrever livros
sobre a filosofia dos pára-choques de caminhões.
Há ali, de fato, muita sabedoria. Mesmo por trás
do machismo, da irreverência, aqueles pensamentos
retratam bem nossa realidade e são fruto de uma
experiência de vida.
Foi num pára-choque de caminhão e numa
dessas camisetas de mensagem que li pela primeira vez
esta frase: “Não quero ter razão;
só quero ser feliz”.
De início, achei-a um pouco esquisita. Parecia
expressar a atitude de alguém que “não
tá nem aí”. Como a dizer: o que
me interessa é ser feliz, e “o resto que
se dane”. Dava a impressão de uma atitude
irresponsável, de quem não faz questão
de buscar ou defender a verdade. De qualquer forma,
gostei da camisa e a usei por uns tempos, até
passar para alguém que também tinha gostado
muito.
Há algum tempo, recebi uma mensagem, pela Internet,
que me ajudou a perceber melhor o espírito daquela
afirmação. Uma história simples,
que ensina muito:
Um casal estava comemorando aniversário de casamento.
Resolveram sair para jantar. No caminho, a certa altura,
o esposo ficou em dúvida sobre o percurso até
o restaurante. Achava que deveria seguir pela direita,
mas, inseguro, perguntou à companheira. Ela disse
que o caminho era à esquerda. Ele disse que não,
deveria ser à direita. Ela voltou a afirmar que
era para a esquerda, mas não iria discutir. O
esposo resolveu seguir a própria intuição.
Foi... e acabou se perdendo.
Chateado por ter errado o caminho e perdido tanto tempo
perguntou à mulher: - Você sabia que eu
estava errado? – Sabia, disse ela. – Então,
por que não insistiu comigo? – Hoje é
aniversário do nosso casamento, disse ela. Quero
ter uma noite gostosa, comemorar, festejar. Se eu fosse
insistir com você a gente acabaria discutindo,
brigando, atrapalhando nossa noite. Entre ter razão
e ser feliz, eu prefiro ser feliz!
Fiquei pensando em quantas vezes estragamos tudo só
para provarmos que estamos certos. Quantas discussões
inúteis, brigas, desentendimentos, porque queremos
dar a última palavra, provar que estamos com
a razão. E será que muda alguma coisa?
O que ganhamos quando provamos estar com a razão?
Compensa todo o desgaste?
Pior ainda é quando queremos impor a nossa verdade.
Achamos que os outros são obrigados a crer no
que cremos, pensar como pensamos, agir como agimos,
defender o que defendemos, como se fôssemos donos
da verdade, os mais certos. E quantas vezes tomamos
tais atitudes em nome da religião, da ética,
dos direitos humanos! Quantas vezes fechamos as portas
ao diálogo, que tanto poderia nos enriquecer,
por não aceitar a verdade do outro, as sua razões!
Quanto bate-boca inútil por coisas tão
insignificantes!
Arthur da Távola, falando sobre a beleza do amor,
diz que “ter razão é o maior perigo
do amor. Quem tem razão sempre se sente no direito
de reivindicar, de exigir justiça, equidade,
equiparação... Ter razão é
um perigo: Em geral, enfeia o amor, pois é invocado
com justiça, mas na hora errada. Amar bonito
é saber a hora de ter razão”.
Essas reflexões podem nos ajudar muito na relação
com os outros, seja na família, no trabalho,
na Igreja. Podemos evitar muitas agressões, físicas
ou morais, e afastar o risco de destruir amizades; podemos
reconstruir pontes, restabelecer laços, aproximar
pessoas, simplesmente compreendendo que não é
necessário impor a verdade, ela se impõe
por si mesma. Provar que alguém está errado
não me torna melhor ou pior.
Um pensamento atribuído a Osho, que pode soar
meio deseducado, mas é bem verdadeiro, diz o
seguinte: “Preocupe-se mais com a sua consciência
do que com sua reputação. Porque sua consciência
é o que você é, e sua reputação
é o que os outros pensam de você. E o que
os outros pensam de você é problema deles”. |