| Os cristãos
e a política
Passado o tempo das convenções partidárias
e do registro das candidaturas para as eleições
municipais de outubro, começa oficialmente a
campanha eleitoral. Não há como ficar
neutro ou indiferente a tudo o que irá acontecer.
Trata-se de algo que envolve toda a vida de cada pessoa
e de cada comunidade. Embora os candidatos “roubem
a cena” e fiquem em destaque em todos os espaços,
na verdade os cidadãos e cidadãs é
que são os verdadeiros protagonistas desse processo.
Talvez passe despercebido para a maioria o grande poder
que carregamos nas mãos. De fato, somos nós
que, com o nosso voto, iremos dar, como diz Frei Betto,
“emprego e poder” a algumas pessoas do nosso
município. E da atuação dos mesmos
dependerá em muito a qualidade de vida da nossa
comunidade, o atendimento aos serviços fundamentais
(saúde, educação, transporte, moradia,
segurança), a participação popular,
a liberdade de pensamento e ação, o exercício
da cidadania.
Diante disso, qualquer pessoa responsável percebe
que é impossível ficar indiferente, alheio
a tudo, deixar acontecer, ignorar o processo. Se a pessoa
tem uma consciência cidadã e/ou um engajamento
cristão, estará certamente atenta para
dar a sua valiosa contribuição.
Algumas perguntas surgem naturalmente: de que forma
irei participar desse processo? O que posso fazer? Se
participo de algum grupo na Igreja ou na comunidade,
qual será nossa postura e nossa contribuição?
Há muitos que ainda não conseguem entender
bem a ligação entre a religião
e a política. Alguns, inclusive, chegam a dizer
que “uma coisa não tem nada a ver com a
outra”. “Religião e política
não se misturam”. Ledo engano. Ambas têm
como objetivo a busca do bem comum, a construção
da justiça, a promoção da vida
e da dignidade para todos. A palavra “religião”
significa “re+ligar”. Por isso, a fé
é uma forma de possibilitar a união entre
as pessoas, entre o ser humano e Deus, entre a vida
e a expressão religiosa. E o grande exemplo que
temos é o próprio Jesus Cristo, que não
morreu de velhice ou de doença, mas por defender
a causa da vida e da justiça, por enfrentar lideranças
políticas e religiosas descomprometidas com a
vida do povo.
No caso da Igreja católica, inúmeros documentos
e pronunciamentos deixam clara a exigência do
envolvimento cristão no processo político
de organizar a sociedade. Expressam o grave dever de
levar para a realidade social, econômica e política
os valores evangélicos. Não é à
toa que a CNBB insiste em dizer que “a política,
exercida com honestidade e retidão, pode se tornar
uma forma sublime de exercer a caridade” (Documento
67, n. 2). Paulo VI, falecido em 1978, já afirmava
com muita propriedade: “A política é
uma das mais altas expressões da caridade cristã”
(cf Documento 82 da CNBB, p. 24).
O Documento de Medellín, fruto da Segunda Conferência
do Episcopado Latino-americano, afirma: “A carência
de uma consciência política torna indispensável
a ação educadora da Igreja, a fim de que
os cristãos considerem sua participação
na vida política como um dever de consciência
e como o exercício da caridade, em seu sentido
mais nobre e eficaz para a vida da Comunidade”.
(Capítulo I, número 2) E o papa João
Paulo II dizia: “Os fiéis leigos não
podem absolutamente abdicar da participação
na política” (Christifideles Laici, 42).
Diante de tanta corrupção e falta de seriedade
por parte de muitos eleitos, é natural que haja
um certo “desencanto e diminuição
da confiança do povo nos políticos, nas
instituições públicas e nos três
poderes do Estado” (Diretrizes da CNBB –
Doc 82, n. 33). De fato, percebe-se em muitos, inclusive
agentes e militantes, o cansaço, a sensação
de impotência, o desânimo. Isso, porém,
nunca será motivo suficiente para nossa omissão
ou descrédito. Mesmo sabendo que em muitos lugares
o coronelismo, a pressão e o medo dificultam
o exercício da liberdade, ninguém tem
poder para mudar nossa consciência e impedir nossa
coerência.
Para quem é candidato(a), fica o desafio de fazer
a diferença pela honestidade e transparência.
Para nós, eleitores(as), há pela frente
um bom tempo de debates, reflexões, pesquisa.
Dá para conhecer melhor os candidatos, os partidos,
os programas e compromissos de cada um. No caso das
eleições municipais é ainda mais
fácil. Os candidatos são mais próximos.
Conhecemos sua história, seu passado, seu trabalho,
seu compromisso com a comunidade e com a ética.
Dá para escolhermos de maneira consciente e madura,
não só aquele que irá responder
pelo Executivo, mas, sobretudo, aqueles e aquelas que
assumirão o legislativo do Município.
Não podemos nos omitir! Qual será a sua
contribuição? |