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OBSERVATÓRIO - XCI

TIRADENTES E A CONJURAÇÃO MINEIRA

Ao aproximar-se o 21 de abril, lembrei-me de moção subscrita pelo Lions Clube de Barbacena e aprovada na Convenção de Nova Friburgo em 2001, através da qual se fez um desagravo à memória de Tiradentes e da Conjuração Mineira, face a uma obra patrocinada pela Fundação Teotônio Vilela e de autoria de Marco Antônio Vila. Nela, o autor emite opinião depreciativa sobre o Patrono Cívico da Nação Brasileira, segundo ele “um simples alferes, que, para sobreviver, ainda extraia dentes, uma atividade próxima da escravidão” , e também da Conjuração Mineira – um movimento de “reacionários românticos ou desocupados ou utópicos literários”. A obra mereceu a repulsa de várias autoridades, inclusive do então Governador de Minas Gerais, Itamar Franco.

A Conjuração(dita Inconfidência, expressão com a qual jamais concordei) e Tiradentes merecem maior respeito e hão de ser colocadas em nível mais elevado, pois o movimento liderado pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier parece ser e tem sido o fato mais pesquisado e o que mais controvérsias tem despertado na História do Brasil – sinal de que, ao contrário de algumas opiniões , não foi uma simples revolta localizada no interior e na então capital da “formosa Província de Minas”, senão um brado forte de dimensão nacional contra a opressão das cortes portuguesas. É sabido que a Conjuração não teve a acolhida e o apoio geral durante muitos anos, não só porque no seu início ainda eram fortes a mentalidade, as raízes, o espírito e o prestígio portugueses, mesmo após a Independência

(D.Pedro I era neto de D. Maria I, a louca, sob cujo reinado eclodiu a conspiração), como também o seu ideal era instaurar a república. Tenta-se de vez em quando minimizar a grandeza do Ideal de Tiradentes e de seus companheiros, como “novidade histórica”, como se fossem eles simples aventureiros , “reacionários românticos ou desocupados e utópicos literatos”, mas a verdade cristalina há de sempre imperar, face ao volumoso material histórico existente em Portugal (Torre do Tombo, Museu Ultramarino e outros), no Brasil (Arquivo Público Mineiro, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Biblioteca Nacional, etc.), como também nos Estados Unidos, e de que dão conta os dez volumes da Devassa da Inconfidência Mineira, amplamente comentados por historiadores como Herculano Gomes Matias, baseados em documentos autênticos, e a obra “Devassa da Devassa”, de Kennet Maxwell, professor na Universidade de Colúmbia. A Conjuração não foi, pois, um simples motim de intelectuais, embora integrado por pessoas de alto saber, ao lado de outras menos letradas. A prova disso foi o tempo decorrido entre a descoberta do movimento, a denúncia de Joaquim Silvério dos Reis e o final do processo, no qual, até poucos dias antes da execução da sentença, o advogado dos réus, José de Oliveira Fagundes, ainda tentava minorar as penas a eles impostas. Foram três anos de inquirições, acareações, buscas e outros procedimentos, o que evidencia a busca de informações pormenorizadas sobre as atividades de cada um (foram ouvidas 77 testemunhas , algumas das quais transformadas em réus). O próprio termo INCONFIDÊNCIA, a meu ver impróprio e de que discordo, é outra mostra da diligente atenção que mereceu o movimento por parte das autoridades. A alegada DESLEALDADE dos conjurados foi a mola propulsora da “revanche” da parte dos dirigentes na colônia e no reino, mas acima dela estava o sentido de liberdade e independência latente em cada um e com o qual Portugal jamais concordaria. Até mesmo o seqüestro dos bens chegou às raias do exagero , como a fazer sentir a intenção do esmagamento total e inexorável de tudo que pudesse lembrar a atividade sediciosa, que Tiradentes desejava estender-se ao Rio de Janeiro e a São Paulo. A infâmia lançada sobre o seu nome, a salgação de sua casa em Vila Rica, de maneira que nada pudesse ali nascer, constituem prova disso. Além de tudo, sobrepõe-se a extrema crueldade da pena imposta ao Alferes, cujo corpo foi esquartejado e distribuído pelos caminhos de Minas, “para escarmento dos povos”. Acima de todos esses argumentos, estava o medo de Portugal de perder o domínio da colônia, conforme se vê da seguinte declaração do Ministro Martim de Melo e Castro, homem forte dos tempos da devassa: “Sem o Brasil, Portugal é uma insignificante potência”, a que se acrescenta outra também significativa: “Entre os povos de que se compõem as diferentes capitanias do Brasil, nenhuns talvez custassem mais a sujeitar-se a reduzir à devida obediência e submissão de vassalos ao seu Soberano como o foram os de Minas Gerais” (Kennet Maxwell – A Devassa da Devassa). Este mesmo autor Maxwell fez o seguinte comentário sobre Tiradentes: “ A tranqüila dignidade com que Tiradentes enfrentou a morte foi um dos poucos momentos heróicos do fracasso sombrio (...) Tiradentes não era um anjo, nenhum homem o é. Mas, em uma história particularmente carente de grandes homens, Joaquim José da Silva Xavier impõe-se como uma exceção.” E esta afirmação do Frei Raimundo da Anunciação Penaforte, que relatou os últimos momentos da Conjuração: “Este homem (Tiradentes) foi daqueles indivíduos da espécie humana que põem em espanto a própria natureza. Entusiasta com o aferro de um QUAKER; empreendedor com o fogo de um D. Quixote; habilidoso com um desinteresse filosófico; afoito e destemido, sem prudência às vezes, e temeroso ao ruído da recaída de uma folha. Mas o seu coração era bem formado, como se deixará ver no curso desta narração. Tirava, com efeito, dentes com a mais sutil ligeireza, e ornava a boca de novos dentes - feitos por ele mesmo – que pareciam naturais.”

Barbacena concorreu com cinco integrantes da Conjuração, e guarda em seu seio, no silêncio do adro da Igreja do Rosário, o braço direito de Tiradentes, como a significar sua importância histórica nos feitos do maior movimento já realizado no Brasil na luta pela Liberdade e pela Independência.

Publicado em 17/04/08



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