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I – LIBERDADE! LIB ERDADE!

Tenho procurado acompanha as notícias sobre acidentes rodoviários, em que alguns motoristas considerados alcoolizados se recusam a usar o bafômetro sob a alegação de que eles atentam contra a liberdade individual, e, recorrendo à Justiça, conseguem hábeas corpus, são detidos pela Polícia, que lavra o boletim de ocorrência.

Tais boletins se perdem na infinidade de outros tantos, e fica tudo “como dantes no quartel de Abrantes”. No meu limitado conhecimento jurídico, discordo de tal procedimento. Diz-se que ninguém é “obrigado a produzir provas contra si mesmo”, e o Brasil aderiu a um tratado internacional a este respeito. Acho, salvo melhor juízo, que o conceito de Liberdade está sendo demasiadamente, e erroneamente, interpretado, pois o alcoolizado, se não flagrado COMPROVADAMENTE (através do bafômetro) pode causar danos irreversíveis. Quem produz (gera, faz , elabora) a prova não é o PROVÁVEL alcoolizado (apenas um agente do delito) e sim a Polícia. Tanto é assim que o motorista que imprime velocidade acima da permitida pelo Código de Trânsito, nem sempre percebe isso, e a comprovação se faz através do radar instalado nas rodovias.
Bem disse Giobert: “Os maiores inimigos da liberdade não são os que a oprimem, mas os que a deturpam.”

II – NOTÍCIAS DO LIONS CLUBE DE BARBACENA

Foi um passeio inesquecível. Além do fraterno convívio,da integração, do companheirismo, tivemos a oportunidade de reviver a história e de participar do culto à tradição na pequena Conservatória, através de suas memoráveis serenatas. No caminho, visitamos demoradamente a Pousada Fazenda Ponte Alta, em Barra do Piraí, que exibe aos visitantes suas amplas e antigas instalações, algumas delas agora adaptadas à modernidade, sem, todavia, perder o seu encanto secular. À nossa chegada, recebeu-nos simpaticamente o Sr. Renato, na figura do Barão da Mambucaba e com trajes característicos, que foi o nosso cicerone na visita à fazenda. Porte altaneiro, sorriso afável, espirituoso e profundo conhecedor dos costumes da época, comentou detalhadamente cada uma das diversas atrações existentes. A Ponte Alta evoca um passado faustoso e revive as agruras dos tempos da escravidão. Os instrumentos de tortura ainda estão nela expostos para mostrar o sofrimento dos cerca de quatrocentos escravos (quanto maior o número deles, considerados “coisas” e vendidos como qualquer mercadoria, tanto mais se demonstrava a riqueza de seu proprietário). O período áureo dos “barões do café” é revivido em tais propriedades do século XIX, grande parte no Vale do Paraíba, e muitas já apareceram nas novelas de época exibidas pela televisão. A Ponte Alta tem uma renda atual na criação do gado de corte, mas parece-me que a mais expressiva é a do turismo, muito bem explorado (no bom sentido) como atração principal, graças ao empenho da atual proprietária, Evelin Pascoly – uma das fundadoras do PRESERVALE ( Instituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraíba). As senzalas antigas foram adaptadas para esta finalidade, assim como o antigo hospital e a casa-sede (em ruínas, foi reconstruída mais ou menos em 1930). As refeições, de que desfrutamos com ávido apetite e atração da comida caseira, são servidas em antigas baixelas. A tulha, também adaptada, conserva, assim como as demais benfeitorias, móveis muito bem cuidados e tão antigos quanto a fazenda. O pátio onde se secava o café é hoje um amplo quadrilátero gramado. Gigantescas rodas de ferro ainda estão em seus lugares e eram movidas através de um aqueduto para isso construído, assim como o monjolo, tudo destinado ao preparo (secagem, descasca, moagem, etc.) do café.

Na tulha, agora um recinto preparado, mobiliado e ornamentado, assistimos a uma oportuna, agradável e muito bem vivida, monologada ou dialogada encenação da vida e costumes daquela época. Três personagens: o Barão, a Baronesa e a Mucama. Com trajes apropriados, velas acesas para transmitir certo ar de nobreza (mesmo porque não havia luz elétrica), vimos desenrolar-se diante de nós um passado remoto, ao qual mentalmente nos reportamos no acompanhamento das cenas. Não podiam faltar, óbvio, as exibições e danças do tradicional minueto e da polca, antecedentes de nossa quadrilha junina, da capoeira e do samba. UM “banho” de história e de tradição.

Conservatória nos esperava de braços abertos. Um friozinho semelhante ao de nossa Barbacena. No Hotel Vilarejo, com muito boa estrutura e entretenimentos, as suítes são simples e confortáveis. Alguns, como nós, já conhecíamos o local, que é um distrito de Valença. Nas duas ruas principais, lojas com artigos locais, exibiam suas mercadorias, como artefatos de papel, toalhas, utensílios de bambu, chocolates e um mundo de utilidades. Mas, óbvio, a atração principal são as serenatas, que um grupo de heróis seresteiros mantém vivas. No centro de um quarteirão, um espaço amplo, mas que fica pequeno diante de incontável número de turistas. É nele que se esbanja arte e tradição. Uma estátua em corpo inteiro evoca a figura do pioneiro José Borges. Conservatória é sinônimo de serenata, e nela é bom estar, apenas estar, sem outro cuidado senão o de usufruir a beleza das canções, a afinação das vozes, o virtuosismo dos violeiros, o sabor de um vinho tinto, e a paz que tudo isso envolve. Os turistas vão chegando aos poucos e se juntam aos seresteiros nas vozes, na alegria, na convivência fraterna, nos sorrisos, e o grupo percorre as ruas, canta, para depois voltar ao início para continuar as serenatas evocativas. As casas têm uma placa de metal com o nome de alguma canção e a conservam orgulhosamente. A cantoria mergulha na madrugada como um canto de amor e de lembranças. Inolvidável.

No domingo, mais uma surpresa na Missa Afro, em que um grupo negro de jovens e garotos, além de sua “madrinha”, apresenta os antigos costumes da celebração religiosa (confesso que não gosto de missa barulhenta, como costuma acontecer, e com certo exagero. O recolhimento e o silencia são, a meu ver, indispensáveis. Mas aquela foi especial e calou fundo na alma dos fiéis que lotavam o templo) O grupo entra na igreja com seus atabaques e berimbaus dirige-se ao altar-mor, traz ofertas de frutos da terra (cará, milho, frutas, etc.) e fica aguardando o momento certo de atuar discretamente. O Ministro da Eucaristia, na ausência do pároco, transmite esclarecimentos. No altar-mor, um grande estandarte dependurado mostra a gravura de Josefina Baquita (bakita ou baquita – afortunada), considerada santa e - dedução minha – protetora dos negros e escravos. Foi uma cerimônia envolvente em ambiente respeitoso e acolhedor, que transmitiu surpreendente entusiasmo e piedade a todos quantos lotavam a Matriz de Santo Antônio. Saímos dali e fomos participar da solarata – a seresta durante o dia.

Despedimo-nos de Conservatória com a alma lavada, certos de que ela continuará a brindar os visitantes e turistas com a sua tradição seresteira e com a simpatia de seu povo acolhedor.

Publicado em 08/08/08



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