| Se
Eu sou um saudosista assumido e confesso. Gosto de
rever meus guardados, remexer nas velhacarias com muito
amor. Esta semana revi um caderno de literatura portuguesa
do ano de 1969 onde eu fazia o curso clássico
no Colégio Estadual Professor Soares Ferreira.
Anotar pequenos detalhes que me chamavam a atenção
era uma das minhas manias. A aula era de Literatura
e o Nogueira era o professor. Muito bom e amigo. Nesse
dia ele nos instruiu com sabedoria sobre as várias
formas de um discurso e as características das
escolas literárias. Discutimos que um autor pode
ter várias características num determinado
trabalho como numa música, num conto, numa crônica
ou num poema. Citamos como exemplo Chico Buarque de
Holanda que nas suas composições dá
um passeio pelas escolas literárias, basta analisar
as letras das músicas A banda, Roda viva, Geny,
Carolina, Construção, O que será?,
Olhos nos olhos, Pedaço de mim, Yolanda, Tanto
mar, Vai passar, Mulheres de Atenas, Gente humilde e
tantas outras. O assunto era interessante e todos os
alunos estavam atentos e questionavam, debatiam e aprendiam.
Alheio a tudo e a todos estava lá no seu cantinho,
assentado na última carteira do lado esquerdo
o colega Santos. Aluno educado, inteligente, calmo,
de poucas palavras, devorador assaz de livros e atendia
pelo apelido de “ratinho de biblioteca”.
Seu gosto pela leitura era de causar inveja. Lia tudo.
Os debates entre ele e os professores de literatura
eram constantes, ficávamos maravilhados com suas
colocações e perguntas inteligentes. Aprendíamos
muito com esse gênio literário e da gramática
portuguesa. Era difícil encontrar um livro que
ele não tivesse lido ou ouvido falar. Santos
escrevia muito bem e colocava suas idéias e ideologias
nos trabalhos apresentados.
Além da genialidade Santos tinha outra ocupação
que não a leitura, - ele adorava uma cachaça,
uca ou pinga. Por várias vezes ele compareceu
no colégio totalmente embriagado. Neste estado,
ele ficava crítico, falava sozinho, resmungava
baixinho, discordava das opiniões dos professores
só para gerar discussão, principalmente
do professor Nogueira, que ele o considerava velho,
ultrapassado e desatualizado.
Aproveitando o assunto polêmico, inteligentemente
o professor Nogueira solicitou-nos que fizéssemos
uma redação sobre o tema “Se”.
Ele queria ver se assimilamos o aprendizado da discussão.
A maioria alegava dificuldade em discorrer sobre esse
tema abstrato. Enquanto discutíamos o Santos,
totalmente bêbedo, já havia redigido a
sua e esperava o momento para entregá-la e lê-la,
lá na frente de todos. Pela rapidez ele a escreveu
em segundos. Uma colega, vizinha de cadeira estava com
dificuldades de discorrer sobre o tema e pediu-a emprestado
para tirar uma idéia do enfoque dado. Ao lê-la
ela se assustou e comentou conosco sobre o teor. Discutimos
baixinho e concluímos que o trabalho do Santos
não poderia ser entregue ao professor nem lido,
para o bem dele. Você deve estar curioso para
saber o conteúdo da redação do
amigo Santos. Ei-la na íntegra:
Se
“Se eu fosse urubu, sobrevoaria a casa
do professor Nogueira e cagaria sobre a sua cabeça”.
Então? Fizemos bem em não deixá-lo
ler a redação? Que nota você daria
pela criatividade, imaginação, originalidade
e pelo assunto abordado? |