| Azarado e pé
frio
Alci, meu colega de exército, alertou-me para
um detalhe que percebera em mim, um tanto macabro. Toda
sexta-feira ele conferia o plantão do final de
semana e dizia: “Graças a Deus esse será
tranqüilo”. Ou ele dizia: “Xiiiii!!!
Vamos ter problemas nesse vem aí chuvas, trovoadas,
relâmpagos, inundações e temporais”.
Cansado de ouvir essas duas frases lhe perguntei o porquê
delas. Com um sorriso sarcástico ele comentou:
“Santana, só você ainda não
percebeu que todo plantão que você está
escalado acontece uma desgraça. Você é
um pé frio ou um tremendo azarado. Se me escalarem
para trabalhar com você eu deserdo ou pago alguém
para tirar no meu lugar. Com você não fico
de jeito nenhum”. Esse relato deixou-me pensativo.
Voltei no tempo e percebi que ele estava coberto de
razão. Sempre nos meus plantões algo diferente
acontecia. Analisando pelo lado bom, valeu muito porque
estou aqui relembrando e escrevendo os fatos vividos.
Esse que narrarei foi um deles.
Era manhã de uma sexta-feira de 1967 quando
fui conhecer a escala. Por possuir o ginasial completo
e pertencer ao chamado contingente, eu só tirava
plantão nos finais de semana. Olhei atentamente
e vislumbrei meu nome escalado para o sábado.
Por alguns minutos pensei no que me dissera o amigo
Alci. Os pensamentos vinham com uma rapidez incrível.
Eu me perguntava: Será que vai acontecer algo
de ruim nesse meu plantão? Será o Alci
um bruxo? Um mago ou um canastrão? Orei e os
pensamentos se harmonizaram.
Chegou o sábado, os pensamentos ruins se dissiparam
e eu concentrado no meu plantão, unicamente nele.
O ambiente do quartel estava tumultuado. Eram presos
políticos chegando e saindo. Eles eram chamados
de subversivos, comunistas ou inimigos do povo. Fui
escolhido para escoltar um preso que recebera naquele
dia as visitas da esposa, do pai e da mãe. Recebi
ordens para acompanhá-los à distância,
deixando-os à vontade sem perturbação.
Mesmo à distância percebi choros, abraços,
sorrisos e beijos que aumentaram na hora da despedida.
O preso foi reconduzido ao xadrez com lágrimas
nos olhos e um sorriso triste e disfarçado nos
lábios. Ele era químico, acusado de construir
bombas que eram lançadas contra militares e provocar
tumultos populares. Lembrei-me da máxima militar:
sou mudo, cego e surdo. Final do meu plantão.
Fui substituído pelo soldado Sandoval que recebeu
minhas orientações de praxe. A madrugada
chegava e o sono não. Assentei-me num banco sob
os ipês floridos anunciando a chegada da primavera.
Um corre-corre de militares se fez presente em direção
ao xadrez. Curioso como sempre, corri para lá.
A cena que constatei foi marcante, o soldado Sandoval
estava desmaiado, o preso todo ensangüentado, o
tenente lhe fazendo um torniquete com um lenço
acima do pulso, a ambulância adentrando ao quartel
com a sirene ligada acordando todos e chamando curiosos
para saber o que estava acontecendo. O movimento aumentava
na proporção da ansiedade.
O que aconteceu?
O preso se dizendo barbudo solicitou ao soldado Sandoval
uma gilete para se barbear. Ele argumentou que receberia
novamente as visitas da esposa e dos seus pais no domingo
e que gostaria de estar bem apresentável para
eles. Inadvertidamente o soldado Sandoval lhe deu a
gilete e num descuido o preso cortou o pulso, tentando
se matar. Ao ver o sangue se esvaindo Sandoval desmaiou,
mas teve tempo de dar um grito de alerta. O preso foi
levado para o hospital militar. Não tive notícias
dele. O soldado Sandoval foi advertido pela displicência,
porém ficou famoso tornando-se celebridade. |