| Doutor, fui estuprada
por um homem lindo
Magda, 24 anos, 1,75m, olhos grandes, esverdeados, cabelos
loiros, lisos, braços e pernas longas, pele clara,
dentes perfeitos, sorriso encantador e de um andar que
mais parece uma gazela. Magda era lasciva, provocante,
sedutora, maliciosa, gostosa. Foi para ela e não
para Helô Pinheiro que Vinicius de Moraes e Tom
Jobim escreveram este poema: “Olha que coisa mais
linda/Mais cheia de graça/É ela menina/Que
vem e que passa/Num doce balanço/A caminho do
mar/Ah, se ela soubesse/Que quando ela passa/O mundo
inteirinho se enche de graça/E fica mais lindo/Por
causa do amor”. Com tanta beleza andando por aí
só podia dar nisso!
Magda era uma atleta. Caminhar era o seu esporte preferido,
só para manter a exuberância. De segunda
a sexta-feira o local escolhido era bastante povoado,
porém nos sábados e domingos ficava ermo
e muito perigoso. Por esse trajeto passava a linha férrea
que ligava Barbacena à Antônio Carlos,
Barroso, Tiradentes e São João Del Rei.
O domingo amanhecia e a destemida Magda caminhava sozinha,
pela estrada cheia de matagais e esconderijos nas encostas.
Ao olhar para trás ela percebeu que não
estava sozinha, três rapazes vinham celeremente
no seu encalço. Ao vê-los seu coraçãozinho
bateu mais forte e o medo a fez acelerar os passos.
De nada adiantou, ela foi alcançada e os desconhecidos
a raptaram levando-a para um esconderijo no matagal
fechado. Ela ficou em poder deles por mais de sessenta
minutos. Coitadinha, tão indefesa nas mãos
daqueles incautos, tarados e marginais.
Tristonha e com algumas marcas roxas pelo corpo, principalmente
no pescoço e coxas, ela foi à delegacia
prestar queixa. Vinte degraus de madeira bem encerados
separaram Magda do gabinete do Dr. Delegado. Só
de lembrar dos momentos de terror que ela ficou em poder
dos meliantes, Magda chorou. O delegado pediu ao escrivão
que trouxesse para ela uma xícara de café
e lhe pedia calma e que contasse com detalhes tudo que
aconteceu naquela fatídica manhã de domingo.
De vez em quando alguns funcionários, despistadamente,
iam até sala do delegado para pedir assinatura
de documentos, só para ver de perto aquele monumento,
ou melhor, aquela pobre indefesa. Mais calma, ela começou
a depor.
- Doutor delegado a coisa aconteceu muito rápido.
Eram três homens que me atacaram na antiga linha
da oeste. Eles, de posse de facas e canivetes, pediram
que eu me mantivesse calma, sem gritar porque se eu
agisse assim eles não fariam nenhum mal a mim.
Tive que ouvir muitos palavrões e passar por
situações constrangedoras. Gostosa foi
o que eles mais me chamaram. Eu pedi a Deus que passasse
alguém naquele local. Infelizmente não
passou ninguém. Cheguei a pensar que eles fossem
me matar.
- Você pode descrever o tipo físico de
cada um que atacou você? Depois vou lhe mostrar
algumas fotos para ver se você pode identificá-los.
- Doutor eu só sei que o primeiro homem que me
agarrou era moreno e cheirava a cachaça. Ele
tentou tirar a minha roupa de ginástica e passou
as mãos pelo meu corpo. Senti nojo e raiva dele.
- E o segundo?
- Bem, o segundo nem notei direito porque eu fechei
os olhos para não ver nada. Este além
de acariciar o meu corpo, tentava me beijar com bafo
de pinga (chorava copiosamente). Ambos tinham as mãos
ásperas. Não sei o porquê eles me
pareciam pedreiros, nada contra a profissão que
acho digna.
- E o terceiro, o que ele fez e como ele é?
- O terceiro homem, (neste momento ela parou de chorar
e abriu um sorriso largo de satisfação)
era loiro alto, forte, pouco maior que eu, olhos esverdeados
que nem os meus, cabelos lisos e compridos, aparenta
ter entre 25 e 30 anos, peitoral largo, bíceps
avantajados, mãos lisas, unhas tratadas, mãos
grandes e dedos longos. Esse não tinha bafo de
cachaça. O hálito era normal. O que mais
chamou a minha atenção era a sua voz grossa
e uma boca grande e lábios carnudos, isso eu
pude perceber. Ouro detalhe que notei foi que os outros
tinham falhas de dentes na boca e este não. Ele
me abraçou, beijou meu pescoço, minha
nuca, meus ouvidos, meu rosto, minha boca, apertou-me
nos seus braços fortes e alisou todo o meu corpo.
Nossa! foi uma loucura. Eu não tinha como me
desvencilhar dele, ele era forte e corpulento demais.
Este terceiro, por ter ficado mais tempo pertinho de
mim eu o reconheceria em qualquer lugar. Também
com uns olhos daqueles, quem iria se esquecer?
O detetive que estava próximo à sala
do interrogatório disse baixinho:
- Doutor, quem tem que ser presa é essa moça.
Foi ela quem seduziu e estuprou os três rapazes!
Pelo que me disse a irmã da bela e doce Magda
os sortudos, ou melhor, os marginais não foram
encontrados. Ela continua dizendo que dará uma
recompensa financeira a quem encontrar o loiro e que
se ela mesma o encontrar o levará para sua casa,
ou melhor, para a cadeia. |