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A CRISE DO PETRÓLEO E A JANELA DE OPORTUNIDADES QUE SE ABRE AO BRASIL

Em 1973, quando a OPEP, influenciada pelas derrotas árabes nos conflitos contra Israel, resolveu aumentar abruptamente o preço do barril de petróleo para algo próximo a US$ 48,00, o mundo inteiro sentiu o que se convencionou chamar de o Primeiro Choque Mundial do Petróleo. Os EUA, maior consumidor mundial deste combustível fóssil, imediatamente começou a buscar alternativas para repassar para o restante do planeta a conta amarga daquele aumento, pois estavam acostumados a pagar apenas US$ 12,00 o barril. As grandes petrolíferas dos países ricos, como Exxon, Mobil, Texaco, Chevron, BP, Shell, Agip, Repsol, ELF entre outras, passaram a pressionar seus respectivos governos para que tomassem alguma atitude frente aquela situação que lhes parecia insustentável.

O governo norte-americano, através do Federal Reserve (FED) anunciou ao mundo que o Padrão Monetário Internacional não seria mais o Ouro-Dólar, pois sabia que não possuía reservas suficientes do metal para lastrear sua moeda. A partir daquele momento o novo padrão monetário seria o “Dólar”. Dessa forma, os EUA avisavam a todos que sua moeda estava então lastreada na sua capacidade econômica, bélica e tecnológica, bem como no seu poder geopolítico. Ou seja, o que garantia ao mundo que o dólar era uma moeda forte e que poderia continuar sendo usada para os pagamentos internacionais eram suas empresas como a Coca-Cola, a Ford, a GM, as petrolíferas, além dos seus porta-aviões, suas tropas, sua força aérea e suas bombas atômicas. Estava garantida ali a hegemonia norte-americana sobre a economia mundial, ainda que na base da força.

Mas somente isso não bastava, era preciso fazer o mundo pagar parte da conta pelo aumento do petróleo. Então, os EUA, através do FMI, definiu que os contratos de empréstimos internacionais seriam baseados em juros flutuantes e não mais em juros fixos. Assim, com a explosão dos juros, pressionado pela inflação, a dívida externa dos países subdesenvolvidos simplesmente explodiu e se tornou quase impagável. Junto a isso, houve um aumento significativo no preço dos produtos industrializados exportados pelos norte-americanos e uma redução das matérias-primas e alimentos exportados pelos países subdesenvolvidos, fazendo com que a balança comercial ficasse deficitária para os mais pobres e superavitária para os EUA, especificamente no que se refere às transações comerciais entre estes países.

Em 1978, logo após a Revolução Islâmica no Irã, a OPEP novamente aumentou o preço do barril de petróleo, provocando um Segundo Choque Mundial. Estava ali se encerrando um longo ciclo de expansão da economia mundial que já vinha se dando desde a década de 1950 e que os franceses chamavam de Les Trente Années Glorieuses. Para nós, latino-americanos iniciava-se uma crise profunda, marcada por muita recessão, inflação, endividamento e calotes, tempo que hoje chamamos de “A Década Perdida”.

Em 1990, Saddam Hussein resolveu invadir o Kuwait alegando estar anexando um território que, historicamente, sempre pertenceu ao Iraque. Já que ali era, antes de tudo, a velha e gloriosa Pérsia de Artaxexes e Ciro. Mas, seu objetivo era abocanhar as reservas kuwaitianas de petróleo e, dessa maneira, transformar o Iraque no maior produtor mundial de petróleo, o que lhe daria a presidência da OPEP. Diante de tamanha ameaça a sua hegemonia, o presidente dos EUA, Bush (pai), resolveu invadir o Kuwait e expulsar as tropas iraquianas de lá, bem como bombardear o Iraque. O mundo inteiro então ficou na expectativa de que aconteceria um Terceiro Choque Mundial do Petróleo. Contudo, os norte-americanos resolveram colocar suas reservas estratégicas no mercado mundial, impedindo assim uma nova crise econômica mundial por conta do petróleo.

O barril foi negociado por cerca de US$ 30,00 durante a década de 1990, mas a demanda mundial pelo combustível tem crescido assustadoramente nos últimos anos e as reservas mundiais se reduziram rapidamente. Situação que tem levado a OPEP a uma política de restrição da produção. Logo, o preço do barril de petróleo tem subido desde o início do século XXI e agora alcançou a estratosférica casa dos US$ 140,00. Nos EUA, o debate em torno do preço da gasolina já tem tomado conta dos principais meios de comunicação e preocupado os analistas de mercado que vêem neste preço atual um sério risco de pressão inflacionária sobre toda a cadeia produtiva, contaminando a já combalida economia norte-americana.

O mundo já sente o impacto disso. O preço dos alimentos tem subido por todo o globo e pressionado a inflação em quase todos os países. É a globalização econômica mostrando que, se a internacionalização da economia tem suas vantagens criando um mercado mais aberto e competitivo, por outro lado faz com que as crises econômicas se espalhem rapidamente contaminando as economias nacionais de modo generalizado.

O Brasil, ainda tem conseguido resistir a mais essa crise internacional por vários motivos. Primeiro porque nossas reservas internacionais superam a casa dos US$ 200 bilhões, o que é bem mais do que toda nossa dívida externa. Logo, temos hoje um colchão de moeda estrangeira que nos permite caminhar sem muitos problemas por esse cenário de instabilidade e crise. Segundo, porque o governo brasileiro já vem fazendo o dever de casa desde meados dos anos 1990, quando foram feitas importantes reformas macro-econômicas visando maior controle dos gastos públicos, geração de superávit primário, políticas de metas inflacionárias, maior autonomia do Banco Central, abertura de mercado, ampliação do micro-crédito, aumento da renda e do emprego, fortalecimento do mercado interno, ampliação das exportações e dos parceiros comerciais etc. Finalmente, o anúncio de mega campos de petróleo e gás natural na nossa plataforma marinha nos coloca numa situação extremamente confortável diante de um cenário tão aflitivo. Os campos anunciados de Tupi e Carioca possuem reservas suficientes para abastecer o mercado interno por muitas décadas, bem como nos torna potenciais exportadores mundiais de petróleo num futuro muito próximo. Isso sem contar que temos uma matriz energética invejável baseando quase 50% da produção de energia em fontes renováveis, como o álcool combustível (etanol), a hidreletricidade e os biocombustíveis.

Enfim, é preciso que tenhamos serenidade suficiente neste instante para sabermos lidar com todas estas expectativas positivas que se abrem numa janela de oportunidades nunca antes vista por aqui. Se soubermos agir corretamente, fazendo nossa parte, ou seja, investindo pesado em educação, tecnologia, infra-estrutura, bem como procedendo algumas reformas ainda necessárias, como a tributária fazendo incidir os impostos sobre a especulação, e a riqueza, a política com a maior democratização das nossas instituições, a agrária com a distribuição das terras ociosas para aqueles que querem plantar e produzir alimentos, e a dos meios de comunicação estabelecendo canais mais democráticos e transparentes de mídia e quebrando o oligopólio que hoje existe neste setor. Isto é, ainda há muito a ser feito, mas muito se fez nestes últimos 20 anos. Agora o que precisamos é ser inteligentes para não deixar o trem da história passar por nós mais uma vez sem pegá-lo.

Publicado em 26/06/08



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